De forma não programada, o design brasileiro de móveis se tornou o tema mais recorrente da Editora Olhares na última década.

Desde nossas primeiras publicações sobre o assunto, nos deparamos com um enorme interesse dos protagonistas desse segmento de contar as histórias por trás de produções atuais e de época. Em certa medida, porque eram boas histórias: o Brasil tem realmente uma contribuição ímpar nessa atividade. Por outro lado, era fundamental contá-las, pois elas davam à materialidade de cada um daqueles objetos inanimados um sentido mais amplo, profundo e conectado ao espírito de seu tempo.

Como ocorre em qualquer experiência de ampliação do conhecimento, a cada nova empreitada esse esforço é recompensado com visões complementares e novos contrapontos. E assim esperamos ajudar a ligar os pontos da história de nossa cultura material.

A seguir, reunimos cronologicamente pequenas sinopses dos principais títulos de design da Olhares, que permitem ao leitor um breve panorama da história dessa atividade no Brasil.

Art déco no Brasil - Coleção Fulvia e Adolpho Leirner

Mais do que um estilo de linhas definidas, o art déco engloba variadas experiências que ampliavam os ideais e estéticas do modernismo para aplicações além dos suportes artísticos usuais nas primeiras décadas do século XX – tais como a decoração doméstica e comercial, a arquitetura e as artes gráficas. A coleção representada no livro é um registro sem igual do período no Brasil, com itens assinados por Gregori Warchavchik, Lasar Segall, Antelo Del Debbio, John Graz, Tarsila do Amaral, Vicente do Rego Monteiro, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Ismael Nery, Antonio Gomide, Regina Gomide Graz e Flávio de Carvalho.

Gregori Warchavchik – Design e vanguarda no Brasil

Pioneiro da arquitetura moderna no país, Gregori Warchavchik incluiu em sua atuação o projeto de interiores e mobiliário, elementos fundamentais para consolidar a nova forma de morar que preconizava. Com base em um rico acervo de croquis e imagens de época, no ensaio produzido pelo fotógrafo Ruy Teixeira sobre peças originais e na análise histórica de Jayme Vargas, o leitor conhecerá detalhes deste viés menos notório mas igualmente vanguardista de sua contribuição ao modernismo brasileiro.

Móvel moderno no Brasil

Principal obra de referência sobre o tema, publicado originalmente em 1995, o livro de Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, professora titular de design da FAU-USP, analisa os contextos que levaram à modernização do mobiliário brasileiro e suas expressões mais representativas desde o início do século XX. Revisada e ampliada, a nova edição estende esta abordagem à produção contemporânea. O livro tornou-se um ícone do processo de revalorização do móvel moderno brasileiro ocorrido ao longo das últimas décadas, elucidando sua trajetória e jogando luzes sobre seus tesouros perdidos.

Móvel moderno brasileiro

Este livro classifica de forma extensiva o trabalho de 15 dos mais representativos designers de mobiliário brasileiro no período moderno, entre os anos 1940 e 70, entre eles: Lina Bo Bardi, Joaquim Tenreiro, José Zanine Caldas, Sergio Rodrigues e Jorge Zalszupin. Suas obras são apresentadas em detalhes ao longo de 484 páginas em uma extensa amostragem que permite perceber detalhes do raciocínio criativo e as variações de solução construtiva e estética empregadas por cada um dos designers abordados.

Desenho da utopia

Neste livro, o móvel moderno é retratado em casas de colecionadores e outros locais que habita hoje. As composições precisas do fotógrafo Ruy Teixeira acentuam o apuro estético deste conjunto de peças, desvelando sucessivas camadas de interpretação e fruição para os apreciadores, seja pelo diálogo com obras de nomes centrais da arte brasileira e internacional, pelo lastro histórico de cada peça ou pelo recorte promovido pelas coleções retratadas e seus cenários contemporâneos. Em paralelo, o texto do historiador Jayme Vargas conduz o leitor pela pulsante e incerta trajetória do modernismo brasileiro.

Jorge Zalszupin – Design moderno no Brasil

À frente da L’Atelier, fundada por ele para atender inicialmente à demanda de seus projetos de arquitetura, Zalzsupin projetou verdadeiras joias de jacarandá, trabalhou no limite dos materiais, introduziu novas tecnologias no mercado brasileiro. O livro reúne textos que contextualizam a produção do designer e contam a história da marca, pioneira na produção industrializada do móvel moderno brasileiro, nos anos 1960, e também no uso intensivo de design em produtos de plástico nos anos 1970, e com verbetes ilustrados sobre 34 linhas de móveis do designer.

José Zanine Caldas

Mestre da madeira, criador visionário e multidisciplinar, pioneiro do pensamento sustentável, Zanine foi um dos grandes arquitetos e designers do País em todos os tempos e uma personalidade marcante na cultura brasileira do século XX. Iniciou a vida profissional como maquetista dos mais importantes arquitetos modernos no Brasil nos anos 1940. Tempos depois, ele mesmo se tornou um expoente da arquitetura nacional. No design de mobiliário, foi pioneiro da industrialização com a experiência da Móveis Z, e na década de 1970 produziu no litoral sul da Bahia uma linha de móveis pesados e esculturas, que utilizavam a madeira descartada no processo de devastação da Mata Atlântica, chamados de “móveis-denúncia”.

Percival Lafer – Design, indústria e mercado

À frente da Lafer com os irmãos desde 1961, e ainda em atividade, aos 84 anos, Percival Lafer tem um percurso único no que tange a relação entre design, indústria e mercado no Brasil. Desde o início de sua atuação, se inspirou no mobiliário moderno para estabelecer uma produção em escala e com preços acessíveis. Essa visão o fez se envolver profundamente nas questões fabris, das estratégias produtivas à otimização de recursos e processos, e buscar de forma contínua percepções sobre as demandas do consumidor final de seus produtos.

Ruy Ohtake – O design da forma

Um dos mais conhecidos arquitetos brasileiros, Ruy iniciou sua carreira nos anos 1960, no contexto do brutalismo da Escola Paulista, e desde seus primeiros projetos, nota-se a preocupação de estender o controle sobre os modos de habitar ao desenho do mobiliário, com o uso predominante de estruturas fixas de concreto. Tempos depois, sua obra passou a ser fortemente marcada pelo uso de curvas e cores, com um uso muito livre do traço e das composições visuais, estendendo essas características para as peças que complementam os projetos. O arquiteto passou a produzir também séries autônomas de design, marcadas pela experimentação dos limites de materiais como o aço, o MDF e o vidro.

Marcenaria Baraúna: móvel como arquitetura

Criada em 1986 pelos arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki, em atividade paralela e complementar ao escritório Brasil Arquitetura, a Marcenaria Baraúna teve em seu início importantes colaborações com Lina Bo Bardi e é hoje uma das iniciativas mais longevas e representativas do Brasil na criação e produção de móveis de madeira com design autoral.

Brasil Faz Design: criatividade brasileira no cenário internacional

O livro relata a história deste evento que aconteceu em Milão pela primeira vez em 1995 e foi responsável por apresentar no cenário internacional designers hoje importantes como Fernando e Humberto Campana, Fernando Jaeger e Pedro Paulo Franco, na época jovens talentos que apenas iniciavam sua produção. A obra baseou-se nos registros de catálogos do Brasil Faz Design, em reportagens publicadas na imprensa nacional e internacional e depoimentos de cerca de 70 designers e profissionais colaboradores que participaram do evento ao longo de suas 6 edições.

Prêmio Design MCB: 30 edições

O livro faz uma revisão das 30 primeiras edições, comemoradas em 2016, do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira, principal e mais antiga premiação nacional do setor, com mais de 600 projetos contemplados. Além de uma linha do tempo dos premiados, o livro conta com artigos de Marcos da Costa Braga, que revisita o papel dos prêmios para o segmento, Maria Cecilia Loschiavo, que posiciona o design como fator determinante de nossa cultura material, e Chico Homem de Melo, que a partir dos cartazes escolhidos ano a ano para dar identidade às edições do Prêmio, analisa as relações entre design gráfico e design de produtos.

Design brasileiro: luminárias

O livro apresenta cronologicamente 135 luminárias do período moderno à produção contemporânea, desenhadas por mais de 100 designers atuantes no mercado brasileiro. Entre eles, estão expoentes como Fernando e Humberto Campana, Carlos Motta e Zanini de Zanine, profissionais especializados como Fabio Alvim, Francisco de Almeida e Fernando Prado e jovens revelações como Estúdio Prole, Dennys Tormen e 80e8. O resultado é um panorama histórico da evolução do desenho nacional por este recorte dos objetos de iluminação.

Paulo Alves

A infância no interior e o legado de Lina Bo Bardi, os fundamentos da marcenaria artesanal e a inspiração na arte concretista se misturam no trabalho de Paulo Alves. O resultado é uma legítima expressão do design brasileiro, com uma lógica criativa em que a madeira, com suas características naturais e simbólicas, é a protagonista. A inventividade do autor e sua maestria no trabalho autoral com madeira remete ao legado dos mestres do móvel moderno brasileiro.

Lattoog

O livro apresenta o trabalho da Lattoog, um dos mais destacados estúdios contemporâneos dedicados ao design de móveis em parceria com dezenas de indústrias. “A variedade de formas e tipologias já projetados prova a versatilidade do estúdio e impede que se identifique um estilo único ou linear. Talvez seja mais apropriado falar de um  modo de criação Lattoog, de elaborar referências formais e traduzi-las em peças de leitura imediata, que provocam simpatia de um público que foge da padronização.” Mara Gama, em texto crítico de apresentação do livro.

Zanini de Zanine: edições limitadas

O livro mergulha no universo artesanal do designer carioca Zanini de Zanine, reunindo cerca de 40 peças produzidas com madeira de reuso, com edições limitadas, em seu atelier no bairro do Anil, no Rio de Janeiro. Com as peças vistas em série, é possível notar fases diversas do trabalho, a partir de soluções e elementos recorrentes que são incorporados por Zanini, das linhas retas das primeiras peças à estética marcada pelas curvas que se seguiu, passando por acabamentos que foram racionalizados ou aprimorados.

Janela #4: Art déco e a modernidade ampliada

Conversamos com Ana Paula Simioni e Luciano Migliaccio, autores do livro Art déco no Brasil – Coleção Fulvia e Adolpho Leirner

Era uma vez uma casa abandonada

No livro Alguém passa por aqui e deixa alguma coisa, concebido em parceria com Baba Vacaro, Marina Linhares dá uma amostra prática – e poética – de seu raciocínio criativo

Em primeira mão, leia trechos de livro sobre Attilio Baschera e Gregório Kramer

Cinquenta anos atrás, o Brasil era fechado para o exterior. São Paulo acabava de se tornar a maior cidade do País, mas tinha ainda um jeito provinciano