Attilio Baschera e Gregório Kramer - Trecho #3

Lançamento do livro em novembro

junho 2020 | Design, Décor

Um dos aspectos que o livro sobre Attilio e Gregório ressalta é a vida de incríveis encontros que tiveram, construindo coletivamente o espírito de uma época e transpondo isso para o universo do décor. Uma dessas relações muito próximas se deu com a modelo Lucia Curia, como relata Attilio.

Enquanto trabalhava na Abril, conheci uma das maiores amigas que Gregório e eu tivemos, Lucia Curia. Certa noite, eu ainda estava trabalhando no fechamento de uma revista, quando alguém bateu à porta do meu escritório. Pedi que entrasse sem nem ver quem era. Quando levantei os olhos, vi ali uma jovem moça maravilhosa, de salto alto e luvas até o cotovelo. Ela me disse, toda tímida, que era gaúcha, recém-chegada a São Paulo e que gostaria de se candidatar ao concurso para ser a nova modelo da revista Manequim.

As inscrições estavam encerradas e já tínhamos quatro candidatas finalistas que seriam julgadas pelos diretores, mas eu disse “você ganhou” e a levei na hora para o escritório do diretor Richard Civita e a apresentei como a nova modelo de Manequim. Ele me perguntou, “mas quem é ela?”, foi quando percebi que nem sabia o seu nome. Ela respondeu que era "Lucia Curia", pronunciado à italiana. Foi contratada na hora.

Inevitavelmente, todo mundo que trabalha nessas profissões criativas procura ser diferente e se destacar. Desde quando começou sua carreira como manequim, Lucia tinha muita personalidade e começou a ter mais destaque nas revistas do que as outras meninas — que também eram excepcionalmente bonitas.

Em pouco tempo, ela se mudou para a Itália e se tornou uma modelo bem-sucedida por lá. Certa vez, ainda nos anos 60, fui para Roma cobrir os desfiles para Claudia. Ela soube que eu estava na cidade e me procurou para pedir um favor importante: tinha sido convidada a se apresentar como candidata a modelo da Chanel, em Paris, o que incluía uma entrevista com a própria Chanel - só que ela não falava uma palavra em francês e pediu que eu a acompanhasse na entrevista como seu tradutor. Quem arrumou essa entrevista para ela foi Hugo Gouthier, que era embaixador do Brasil em Roma na época. Topei e fomos de trem para Paris depois que terminei meu serviço em Roma.

As modelos brasileiras Giedre e Lúcia Curia (futura Sra. Walter Moreira Salles) apresentam criações da Ciaesa. O Cruzeiro, novembro de 1962.

Quando descemos do trem, fomos diretamente à boutique da Chanel, tínhamos hora marcada e não queríamos nos atrasar. Quando chegamos, uma moça nos recebeu. Ela se chamava Cécile, não sei por que me lembro do nome dela até hoje. Cécile levou Lucia a uma sala onde foi maquiada e inteiramente vestida de Chanel, com o tailleur de jérsei e a camélia de pano. Só então ela foi considerada pronta para conhecer Chanel. Subimos a famosa escada de espelhos e fomos levados ao escritório de mademoiselle, onde ela estava de chapéu, sentada à mesa, com um cigarro aceso e falando ao telefone. Quando desligou, Cécile disse que ali estava Mademoiselle Curia para ser entrevistada. Chanel perguntou quem eu era, respondi que estava ali como amigo e tradutor.

Ela não disse mais nada e ficou olhando Lucia fixamente em silêncio por um bom tempo, até que disse “tournez” e fez um rodopio com o dedo indicador. Lucia deu meia-volta e ficou de costas. Silêncio. Ela soltou uma baforada do cigarro e disse “ça va”. Cécile nos retirou da sala, disse a mim que esperava Mademoiselle Curia na semana que vem e nos acompanhou até a porta. Fora da loja, Lucia - que não tinha entendido absolutamente nada — me perguntou “o que aconteceu?”. Lucia ficou em Paris e esse foi o começo de sua carreira como personalidade da moda internacional. Só fomos nos reencontrar muitos anos depois.