Sobre uma casa macia, por Shirlei Zonis

agosto 2020 | Design, Arquitetura

O impacto dos últimos meses foi grande, e acho que nunca mais olharemos para as nossas casas da mesma forma. Mais do que uma frase feita, essa é uma constatação inevitável.

Folheio as publicações atrás de respostas e me pergunto quantas questões estão disparando seus alarmes internos nestes ambientes que, de uma hora para outra, atingiram a lotação da super presença. E o quanto seus moradores estão cabendo nos seus divãs.

Isso sem falar dos outros espaços, como os colaborativos, esportivos, parques, ruas, a cidade enfim. Estamos lidando com cada um deles de maneira diversa, com super convivência, ou privação.

Enquanto para alguns espaços olharemos com olhos de mudanças ou esgotamento, para preservar outros, que nos fizeram tanta falta, toparemos qualquer adaptação. O pânico é de perdê-los.

Certamente este confinamento tem sido mais penoso para alguns. E surpreendentemente menos penoso, até familiar, para outros.

Uma amiga, que mora na Espanha, me contou que repetiu na quarentena seu dia a dia. Claro, mora numa casa com espaço externo amplo, área verde, tem suas flores, horta e bichos. O difícil, diz ela, é sair agora que está liberada. Acostumou-se tanto à rotina caseira, que já tinha como tendência, que está fazendo o retorno aos poucos, como uma convalescente agarrada ao processo de cura. Surpreendente, mas se você tem sua casa como uma toca, aquele lugar do qual não quer sair para nada que não seja estritamente necessário, um lugar seguro e quieto, fruto de projeto de vida para aposentadoria, como ela, compreensível.

Tenho tido retorno daqueles que têm o privilégio de fazer seu home office na casa da serra, que antes era para o fim de semana apenas, sobre o quanto foi importante caprichar em espaços que agora estão sendo intensamente utilizados. Não pensam em abrir mão dessa qualidade de vida tão cedo.

Mas também ouço relatos sobre ambientes que não comportam mais as questões que foram exacerbadas com o trauma que foi a chegada sem aviso de uma pandemia. (Sim, devemos assumir que é um momento traumático este que estamos vivendo). Crianças que não cabem mais em seus quartos, nem mesmo nas brinquedotecas planejadas para a sua diversão esporádica. Perderam seu ambiente de convívio social na escola, suas áreas de expansão e brinquedo, e ganharam em troca o convívio em tempo integral com os pais. Essas mudanças gerarão novas configurações, vem muita coisa por aí.

As salas de estar deixaram de ser só pra visitas, ou só pros adultos, arrumadas, com cada coisa em seu lugar. O lugar das coisas ficou em segundo lugar, e o espaço livre ganhou relevância por poder ser transformado a cada instante, mudar de cara, abrigar brincadeiras, deixar fluir. A realidade fez seu trabalho de convencimento.

Certa vez adorei fazer um estar que desconstruiu a imagem de sala adulta para fazer compartilhar assumidamente poltronas assinadas com tapetes de borracha super coloridos e caixas de brinquedos engraçadas. Imagino o quão macia e carinhosa esta sala se tornou nessa quarentena… Assim como também imagino o quão difícil está sendo desconstruir outros espaços antes tão definidos.

Aposto que buscaremos a maciez quando formos projetar nossos espaços daqui pra frente, algo mais líquido, que nos contenha sem pressão ou resistência. Que nos receba em nossas expansões e nos permita variar de tamanho e presença.

Aposto que vamos valorizar nosso protagonismo em cena. Fomos obrigados a ver tanta coisa em tão pouco tempo, que nada mais irá nos impressionar superficialmente.

E de tudo, uma coisa é certa, nesse abrir das portas, ainda que vagaroso, a casa virou assunto em todas as praças. Há uma energia nova, que foi ganhando corpo e quer se expandir.

Aposto que essa energia será bem acolhida na maciez dos espaços.

olhshirlei

Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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