Se essa casa fosse minha..., por Shirlei Zonis

setembro 2021 | Design, Arquitetura

Zen e a arte da manutenção de motocicletas, de Robert M. Pirsig, foi um livro que me deixou especialmente impactada. Que admiração pelo autor... O personagem tem uma moto e em dado momento resolve que não será mais dependente de mecânicos e conhecedores do veículo, sendo ele mesmo seu mantenedor. Torna-se condutor de si, enquanto conduz a moto, responsável por tudo a sua volta. Enfim, um desencanado.

Tão diferente de mim…. sou daquelas que trato o meu carro por vossa excelência, quando ele resolve dar chilique e me deixar na mão. Fico aflita com uma situação que parece não terá fim. E é por isso que procuro me cercar de profissionais em quem confio e que não se aproveitarão desse meu desespero.

Acho que podemos transpor essa imagem de dependência para vários setores em nossas vidas corridas. Entramos em modo “automático-fast” para dar conta de trabalho, afazeres, crianças, afetos, sobrevivência e muitas vezes tememos tanto e com tanta força que algo saia fora do arranjo, que nos tornamos dependentes dos que nos fornecem subsídios ou nos apoiam em tarefas diárias. As mais simples operações acabam se tornando verdadeiras charadas, mistérios indecifráveis. E nós, indefesos, paralisamos no modo “me salva dessa”.

Se tem alguma coisa que os meses pandêmicos vieram ensinar – a duras penas, às vezes – foi ter que lidar com vários estágios do funcionamento doméstico, até então quase desconhecidos. E aí, claro, estou me referindo aos que saíam de casa de manhã para trabalhar, retornavam de noite, quando então encontravam, como que por milagre, tudo ajeitado. Isso era no período A.P. (Antes da Pandemia). Foram muitas as piadas que circularam sobre onde encontrar o arroz, ou para que serve determinado utensílio de cozinha. Exageradas, mas tocando no ponto central do processo.

Depois de um ano e meio, a verdade é que algo mais profundo aconteceu nesse contato.

O lidar com os vários estágios das operações, e perceber que tudo o que acontece não é tão misterioso, trouxe um elemento que levou a me sentir como o motociclista do Zen e a arte… Acho que senti até o cheiro do vento na estrada. Um cheiro de desafogo, independência, liberdade. O que parecia tão terrível nos estresses A.P., deixou de ser. Simplesmente porque não atrapalha, não perturba, não ameaça mais.

E sinto, da mesma forma, que os clientes que chegam agora tornaram-se muito mais senhores do seu espaço.

Não é à toa que os cômodos da casa que antes não eram tão detalhados nas demandas, são agora as estrelas da vez.

Sinto que, de turistas carentes em excursão, os grupos que chegam agora ao arquiteto, vêm curiosos, pedindo informações deste guia, mas bem mais antenados. E isso é muito bom.

Em relação à casa, eu iria além da música do título. Não precisamos sonhar com o “se essa casa fosse minha”. Podemos montar nessa moto e seguir em frente.

Ainda que precisemos de ajuda, porque ninguém vive sozinho.

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Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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A segunda pele, por Shirlei Zonis

Como a nossa pele, a casa também exerce esse papel de envelope, é mediadora das interfaces entre mundo interno e externo

Negação, por Shirlei Zonis

Quando aquela cliente chegou cheia de certezas e uma vontade faraônica de modificar tudo, demoramos a perceber que as modificações e obras projetadas estavam encobrindo a realidade insuportável de que aquele espaço já não tinha mais sentido.

Do limão, a limonada, por Shirlei Zonis

Às vezes os apegos aos espaços e memórias podem representar uma dificuldade melancólica na vivência do luto, uma paralisação em algum ponto cego, que não permite nenhuma passagem ou nova vivência