Referências, por Shirlei Zonis

dezembro 2020 | Design, Arquitetura

Referências são importantes, nos orientam, dão chão, tranquilizam. Lembram caminhos percorridos quando estamos perdidos. São como sentinelas, faróis em dias nublados. E o que pode ser mais referente do que a casa? De onde saímos e para onde retornamos a cada jornada. Como exploradores em solos lunares, é nossa nave mãe, que nos acolhe, a ela estamos ligados como astronautas em conexões seguras.

Nela imprimimos nossas marcas, mapeamos nossos confortos, da forma que nos cabem melhor. Escolhemos e elegemos nossos cantos preferidos. Adaptamos suas formas às nossas curvas. E principalmente, nos reconhecemos em seu/nosso espaço. Somos donos generosos numa relação que depende de nossa entrega sincera, para que a acolhida seja verdadeira.

É por isso que nós profissionais damos tanta importância às entrevistas iniciais, aonde estas referências serão estabelecidas, e aonde a voz de quem vai morar é o norte do projeto. Às vezes são pequenos detalhes, que para nós podem passar despercebidos, os responsáveis por esse “se sentir em casa”.

Uma cliente que alternava casas em 5 capitais por conta da atuação de sua empresa em todo o país, utilizava do recurso de ter sempre o mesmo piso em todas elas. Era uma forma de se reconhecer e se sentir acolhida, agasalhada. As cores das paredes, os móveis podiam mudar, sem problemas, mas o piso que a recebia a cada retorno, esse era o marco do abrigo. Para ela, uma referência. Largava os sapatos junto à entrada e o toque do piso com os pés era um sinal para se desligar do modo trabalho e entrar em outra atmosfera.

Podemos dizer que a casa funciona como uma pele, um invólucro permeável, mas protetor. Contém nossas referências, respiramos pelos seus orifícios, externamos o que podemos, deixamos entrar o que queremos. E ela é casa na medida em que guarda nossas memórias, que são nossas vivências. O que nos espera na entrada pode ser um piso amigo, um espelho, um quadro, o que for não importa, desde que nos remeta a algum lugar familiar.

Por isso fico sempre pouco à vontade quando me pedem para fazer o que eu quero num projeto de casa, quando as referências são poucas e não tenho essas balizas de singularidade como guias.

Como quando, acabada uma reforma, o cliente que estava viajando, me pediu para humanizar sua casa, pois estava sem tempo. Como se fosse um espaço de hotel de trânsito. Saí listando vários acessórios, como num trabalho de produção fotográfica, mas tentando colocar o que interpretei do seu perfil nos objetos que adquiri. A foto ficou bonita, mas sei lá, confesso que torci para que ao chegar ele trocasse tudo e colocasse a sua marca pessoal.

Assim como a casa é nossa pele e exerce o papel de troca e proteção, as ruas por onde percorremos trajetos, os bares onde trocamos emoções, o bairro e a cidade são nossas referências cotidianas. É neles que experimentamos a vida em coordenadas conhecidas, acumulando memórias.

Semana passada soube que o último cinema de rua de Copacabana, o Roxy, fechou as portas. Não é qualquer cinema, são 82 anos de vida num bairro que já teve dezenas de salas. Para os entendidos é considerado o melhor som entre as salas de projeção da cidade. Deu muita tristeza ouvir que vai acabar, a choradeira nas redes foi geral.

Assistir filmes em casa já virou um novo normal há tempos… O home theater faz parte do cardápio da maioria de nossos projetos. Ainda assim, nada se compara a entrar numa sala de cinema, pisar nos tapetes, sentar numa poltrona, compartilhar emoções com o anônimo ao lado.

Por isso são tão importantes esses sinais de que entramos em um lugar conhecido… Espaços que nos fazem sentir completos porque nos enxergamos ali. No momento em que abrimos suas portas, somos nós que estamos projetados na telona, os protagonistas desse filme.

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Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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