O ideal do espaço, por Shirlei Zonis

outubro 2020 | Design, Arquitetura

Há alguns anos, ao entregar uma reforma para uma cliente querida, me deparei com uma questão que me perturbou bastante. Ela estava supersatisfeita com o resultado do projeto, aparentemente feliz com o espaço remodelado. Mas senti que hesitava em fazer uma pergunta, um comentário, alguma coisa estava incomodando.

Depois de tomar coragem, perguntou se poderia colocar na estante que ocupava a parede principal da sala sua coleção de 400 corujas, que a acompanhava a vida inteira, e lhe dava muita sorte. – claro! , respondi ainda assustada com o medo que ela teve em fazer a pergunta.

– Mas por que você não me falou dela na entrevista, uma coisa tão importante na sua vida…?

Ela respondeu que ficou com vergonha de falar, imaginando que “uma coleção dessas não combinaria” com o espaço a ser concebido…

Confesso que aquilo me abalou, me vi numa posição para a qual não tinha investido (pelo menos conscientemente), ditando regras para um ideal do espaço. Funcionando ali como um superego cruel, capaz de tolher a expressão mais sagrada de quem vai morar, a de ser o sujeito do enredo de sua casa.

Esse episódio me marcou tanto que, a partir daí, busquei em cada entrevista que antecipa um projeto, escavar os desejos do meu cliente, descobrir sua coleção de corujas… Claro, porque todos nós temos a nossa!

Noutro dia me deparei com um comentário sobre a biografia do tenista André Agassi, que confessou nunca ter gostado de jogar… tênis! Que esse talento lhe foi imposto pelo pai e depois introjetado nele como o objetivo de vida a ser alcançado. Impressionante, mas real e mais frequente do que podemos imaginar, ainda que em casos mais discretos que o de um famoso campeão.

O ideal do eu. Algo que obedecemos às vezes por uma vida, evitando ou desconhecendo nosso eu ideal. Esse último, ele sim, mais próximo de nossos talentos escolhidos, nossa vocação, nosso afeto genuíno. Mais difícil de alcançar, porque foge muitas vezes, ou quase sempre, dos padrões que nos são oferecidos.

Pensando nisso, sempre digo que a casa vendida nas publicações e mostras deveria servir como referência apenas, um panorama do momento cultural em que estamos, da expressão social. E não um modelo a ser seguido, copiado, como um certificado ou carimbo de que estamos inscritos num rol de pessoas ideais.

Esse paralelo entre os conceitos do eu e do espaço parece bem oportuno para o momento em que vivemos. Os ideais, tanto de um quanto de outro, estão se reajustando nessa pandemia numa configuração que ainda não conhecemos.

E isso é uma ótima oportunidade para dar uma escapada desse vigiar do superego, até com bom humor. Afinal, coitado dele, está zonzo. São tantas as novidades, que ainda não sabe o que ordenar.

Fazer do limão uma limonada, e marcar um encontro com as nossas corujas pode ser uma boa pedida.

Bora?

olhshirlei

Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

shirlei_post

Home ou office?, por Shirlei Zonis

Um cliente comentou recentemente comigo: “e o cafezinho, como fica agora?”

Sobre uma casa macia, por Shirlei Zonis

O impacto dos últimos meses foi grande, e acho que nunca mais olharemos para as nossas casas da mesma forma. Mais do que uma frase feita, essa é uma constatação inevitável

Espaços intermediários, por Shirlei Zonis

Quem está esgotado, observando o mundo de sua casa, nem imagina o quanto podem ter sido diferentes estes últimos meses para alguns