O espaço da esperança, por Shirlei Zonis

novembro 2020 | Design, Arquitetura

Levo um susto quando ouço que 2020 foi (foi? mas ainda nem acabou...) o ano que não começou. Como assim?

Dizer que este ano passou em branco me parece um delírio, um absurdo. Desafio alguém a me contar em que outro ano vivemos tantos sustos, medos, angústias e mudanças em nossas vidas e trabalhos. Claro, estou falando de vivências coletivas.

Não são poucos os relatos de traumas familiares, perdas, separações, transformação de hábitos, mudanças de casas e nas casas, deslocamentos de endereço para cidades diferentes, ou até países. Dilemas existenciais, saltos em busca de novos paradigmas, abraços e desabraços.

É pouco?

O que será então que leva a este tipo de comentário, de que o ano não começou…?
Na nossa experiência como arquitetos, ao formatar novos espaços para seus ocupantes, por vezes encontramos alguma resistência na aceitação das novas realidades. São espaços que reduzem ou ampliam de tamanho, em comparação aos antigos. O que acontece é, na verdade, a dificuldade em ver que a mudança se apresenta como uma oportunidade. Um apego ao objeto/espaço anterior como se ele fosse uma segunda pele. E a sensação de que se desprender dessa pele pode causar uma ferida, levar a um ponto de desamparo.

São momentos delicados os de mudanças de casa, tanto podem ser uma explosão de alegria, como podem gerar complicados conflitos.

Certa vez me deparei com a dificuldade de uma cliente em celebrar sua nova casa, cheia de deliciosos ambientes, colorida e maior do que a que tinha deixado para trás. Ela me contou que o antigo apartamento trazia o cheiro do seu casamento de muitos anos e, agora viúva, se sentia pela metade naquele novo que estava recebendo. Não tinha se dado conta desse desajuste até aquele momento, e estava realmente assustada. Não conseguia se separar das memórias que as velhas paredes do antigo endereço lhe traziam.

O apartamento havia se tornado um local insalubre e fonte de uma alergia constante, com a sombra dos edifícios que haviam se erguido a sua volta. Os filhos então se cotizaram para lhe proporcionar o que supunham ser uma alegria – uma casa nova, moderna, iluminada. E ela estava ali aflita, porque não conseguia se desapegar. Agarrada a uma realidade que já não existia.

Depois de um ano de entregue a obra, fui convidada para um café e minha surpresa foi enorme ao ver seu espaço completamente tomado de uma energia renovada. Ela havia, enfim, se apoderado daquelas paredes, e permitido a entrada do novo cheiro em sua vida. Fiquei bem mexida ao ouvir os relatos dos seus projetos e planos para o futuro. A melancolia do seu rosto havia dado lugar a excitantes possibilidades, o luto tinha sido reconhecido, e a constatação de que o passado enfim partiu lhe trouxe tremendo alívio, ainda que ele tenha deixado suas marcas.
Foi inesquecível aquela tarde, e sua lembrança não me veio agora à toa. Neste momento em que nos custa tanto aceitar que nosso antigo jeito de viver já não existe, que temos uma nova perspectiva pela frente, e que, ainda que às custas de alguma dor, esse desapego é necessário e nos fará caminhar para frente.

O luto vivido e a aceitação da perda podem abrir espaço para novos planos, sonhos, realizações e transformações.

Afinal, o que é isso tudo senão uma introdução para a esperança?

Piegas? Difícil?
Pode ser, mas real.

olhshirlei

Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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