Novo livro sobre a coleção Fulvia e Adolpho Leirner

Expressão artística de um momento de grande transformação cultural, entre as duas grandes guerras mundiais que ocorreram na Europa no início do século XX, o art déco é marcado pelo desejo de renovação e pela influência da indústria, que revolucionava os comportamentos de então. Essa relação estreita levou artistas da época a se aproximarem da ideia de funcionalidade, do design em si. Foi quando todos os elementos de um ambiente passaram a ser pensados, criativamente, de forma integrada e harmônica, não importando sua dimensão.

Já dominante no velho mundo, a estética art déco aportou por aqui na bagagem de artistas imigrantes – Gregori Warchavchik, Lasar Segall, Antelo Del Debbio, John Graz, entre outros – e de nomes nacionais que visitavam o velho continente, como Tarsila do Amaral, Vicente do Rego Monteiro, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Ismael Nery, Antonio Gomide, Regina Gomide Graz e Flávio de Carvalho. Eles foram responsáveis pela gênese do modernismo em nosso país e essa produção pode ser vista em conjunto no livro Art déco no Brasil – Coleção Fulvia e Adolpho Leirner, escrito pelos pesquisadores Ana Paula Simioni (IEB-USP) e Luciano Migliaccio (FAU-USP).

Mulher com galgos, de Regina Gomide Graz, primeira obra art déco adquirida pelo casal em 1972. Na foto seguinte, registro da residência do casal em 1974, com o mobiliário de John Graz e outras obras das coleções art déco e construtivista, de artistas como Milton Dacosta, Lygia Clark e Antonio Gomide.

Os Leirner começaram sua coleção de artes decorativas brasileiras no início dos anos 1970. O objetivo era ambientar sua residência, em contraponto a outra coleção que iniciavam, de arte construtiva e acharam que o estilo modernista do art déco era a linguagem ideal para essa combinação. Era um estilo a que pouquíssimos davam atenção, o que favoreceu a aquisição pelo casal de highlights do período, além de suas representações em diversos suportes artísticos.

“As duas coleções, a de arte construtiva e a de arte modernista, surgiram paralelamente ao desejo do casal de habitar um ambiente que manifestasse seu gosto por uma concepção moderna da vida, aliando funcionalidade, conforto e prazer estético”, relatam os autores no texto introdutório do livro. “O acervo formado pelos dois colecionadores, guiados pela curiosidade em relação a todas as manifestações, artísticas ou não, e a todos os campos da produção que formaram o gosto do público da São Paulo moderna, confirma o que as análises historiográficas mais recentes vêm evidenciando: o campo cultural de outrora era extremamente rico, variado e multiforme.”

Em 1974, peças de art déco da coleção foram expostas no Masp.

No livro, os autores analisam obra a obra, repassando, a partir do que sobressai em cada item da coleção, os diversos aspectos artísticos do período. As obras vêm acompanhadas também de seu percurso em exposições e publicações. Além de ser um documento sem precedentes sobre o período, o livro demonstra a relevância da atuação do casal como colecionadores e rememora a formação do mercado de artes no Brasil.

“A Coleção Fulvia e Adolpho Leirner não apenas possui e conserva obras de valor histórico, mas ela própria é parte constitutiva da história da arte moderna no Brasil, tendo contribuído com exposições que suscitaram debates e reavaliações sobre esse momento da arte brasileira. Para compreender isso é preciso recuar um pouco no tempo. A década de 1970 assinalou uma importante etapa na maturidade do campo artístico no Brasil, em especial em São Paulo, por meio da consolidação de um mercado de arte. Multiplicaram-se os leilões comerciais e galerias, bem como despontaram alguns marchands. Num claro sinal de que a arte se tornava uma mercadoria valiosa, os bancos abriram linhas de crédito especiais para sua aquisição. A euforia do mercado artístico era contemporânea ao milagre econômico.” (…) “Compreender a lógica que perpassa a coleção, o princípio norteador de cada aquisição, de cada obra em particular, requer debruçar-se sobre as disputas em torno da definição de arte moderna, das quais os colecionadores participam com uma posição consciente e bastante original para o meio local.”

Retrato de Tarsila desenhado por Cícero Dias, cúpula de abajur de Antonio Gomide, escultura de João Batista Ferri, móveis de Gregori Warchavchik, originais da Exposição de uma Casa Modernista, de 1930, cartaz do Hotel Términus, alguns highlights da coleção que demonstram sua diversidade de suportes.

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