Uma visão engajada e afetiva da arquitetura, valorizando sua função social, uma atuação versátil e o viés artístico.

Esse perfil tornava Noel Marinho um típico arquiteto de seu tempo. Desde o início, ele desenhou painéis de azulejos. Ainda pouco conhecidas do grande público, suas composições improváveis de formas e cores não deixam de oferecer uma sensação familiar, que resulta do alinhamento de Noel à estética modernista, dominante no período de sua formação. Sua produção é um tesouro escondido, que se soma ao repertório histórico e artístico de então, sem abrir mão da atualidade.

Croquis de Noel Marinho

Leia o prefácio assinado pelo crítico André Correa do Lago para o livro publicado em 2019 pela Editora Olhares sobre vida e obra de Noel.

“A publicação deste livro revela não só a carreira de um personagem importante da arquitetura, da criação artística e do desenho industrial no Brasil, mas sobretudo contribui para demonstrar quantos talentos no nosso país ainda merecem muito mais divulgação do que receberam até hoje. Sempre gostei (desde a minha infância) do edifício com fachada coberta de azulejos na Aníbal de Mendonça, mas não sabia quem era seu autor, e estou tão feliz de descobri-lo assim como as tantas outras facetas do seu talento.

Hoje fala-se muito de “ecossistemas de inovação” para o desenvolvimento de tecnologias: o fato de se estimular o convívio de pessoas com grandes mas diferentes talentos cria um ambiente colaborativo e de trocas que contribui para a criatividade de todos. Creio que se pode dizer hoje que havia no Rio entre os anos 1940 e 60 um ecossistema que favoreceu o desenvolvimento de um padrão altíssimo de arquitetura, mobiliário, arte e paisagismo.

Se nomes como Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Irmãos Roberto, na arquitetura, Sergio Rodrigues e Joaquim Tenreiro, no mobiliário, e Roberto Burle Marx, no paisagismo, têm hoje reconhecimento mundial, vemos que ainda temos muito a fazer para que nomes conhecidos no Brasil sejam mais citados no resto do mundo: Sergio Bernardes, Carlos Leão, Jorge Moreira, Olavo Redig de Campos, Alcides Rocha Miranda, na arquitetura, Bernardo Figueiredo, no mobiliário, Fernando Chacel, no paisagismo, são todos merecedores de projeção internacional.

Quanto mais nomes e obras forem conhecidos, mais será fácil comprovar a realidade de que o “ecossistema” do Rio para arquitetura e mobiliário por mais de vinte anos foi um dos mais extraordinários em todo o mundo. Pode parecer cabotino, mas é inegável que havia um padrão excepcional. E é importante colocar Noel nesse contexto, em que conviveu com essas grandes personalidades e muitos outros talentos e no qual traçou um caminho próprio.

Em período de grande crescimento econômico no período militar, o país construiu muito, mas foi isolado pela crítica internacional. Muito pouco da produção arquitetônica brasileira – que havia inundado as publicações estrangeiras entre 1945 e 60 – mereceu atenção internacional entre 1964 e 85. Há progresso com o reconhecimento mundial (muito tardio) da arquitetura de grandes nomes como Lina Bo Bardi, Lelé e Paulo Mendes da Rocha, cujas obras no período foram excepcionais. Se em São Paulo há uma onda de redescobrimento da arquitetura da cidade nos anos 1960/70/80 (graças, em grande parte aos esforços de Raul Juste Lores), creio que, com pesquisas exemplares como a deste livro, haveria muitas redescobertas a se fazer no Rio, também.

Poderia abordar vários aspectos da obra de Noel, mas é pela criação de azulejos que escrevo este texto. Há poucos elementos da nossa arquitetura mais marcantes do que os azulejos, que criam uma ponte entre o colonial e o moderno no Brasil. Afinal, foi o mesmo Lucio Costa que teve papel central para a adoção da arquitetura moderna pelo governo, com o Palácio Capanema, e a proteção do barroco, com a criação do Patrimônio Histórico (Iphan), o que permitiu o desenvolvimento de uma relação única entre o passado e o contemporâneo na arquitetura brasileira. A importância de conhecermos os grandes criadores de azulejos do século no nosso país não pode, portanto, ser subestimada.

Se artistas consagrados como Portinari e Djanira estiveram entre os primeiros a integrar azulejos à arquitetura, devemos recordar que são conjuntos figurativos. Burle Marx criou azulejos excepcionais, tanto figurativos como abstratos, mas foi certamente Athos Bulcão, influenciado pelo neoconcretismo, que criou uma nova fase de azulejos no Brasil. Com suas variadíssimas composições essencialmente abstratas, chegou a criar painéis em que os próprios operários escolhiam a composição.

Noel, como revela este livro, conviveu na juventude com Athos no Rio. Athos, contrariamente a Noel, era um artista que arquitetos convidavam a fazer intervenções. Noel era ao mesmo tempo arquiteto, artista, criador de mobiliário e designer. Esse desejo de ser um “artista total” era muito presente na sua geração pela imensa influência de Le Corbusier. Oscar Niemeyer, que ao longo da vida tanto valorizou obras encomendadas a artistas em suas obras (de Athos a Tomie), chegou a criar móveis e utilizar seus desenhos em murais (Curitiba) ou azulejos (Niterói).
O desenvolvimento dos azulejos de Noel, cuja revalorização é mais do que merecida e bem-vinda, pode ser visto em paralelo ao da obra de Athos. Este se muda para Brasília durante a construção da cidade e abandona o “ecossistema” do Rio para se tornar um dos mais ativos e populares membros do grupo que cria a personalidade e a substância artística da Nova Capital. Já Noel permanece no Rio e mergulha nessa nova fase da arquitetura carioca pós-Brasília que merece tanto debate. Sua fidelidade ao modernismo “heroico” do Rio se reflete muito pelo seu contínuo interesse pelos azulejos.

O primeiro azulejo de Noel, de 1962, é do mesmo ano dos azulejos de Athos para a FGV no Rio (obra de Niemeyer). Nesse caso, Athos cria composição excepcional com duas matrizes. Mas no caso de Noel, há apenas uma matriz, que é produzida em duas versões, uma sendo o negativo da outra. Noel certamente conhecia dois casos muito próximos realizados por Athos poucos anos antes: o painel de azulejos do hospital da Lagoa (Niemeyer), de 1955, com uma matriz em duas versões (que alternam o branco e azul), e o caso similar no Brasília Palace Hotel (Niemeyer), de 1958 (que também alterna o branco e o azul).

Mas Noel vai seguir caminho próprio e, além de utilizar a extraordinária variedade e dinâmica visual que o diferente posicionamento dos azulejos permite, vai explorar cores e padrões de grande originalidade. Realizou, como se vê neste livro, muito menos do que seu talento permitiria. Mas sua obra de arquiteto e designer certamente roubou muito do tempo que precisaria para criar e realizar mais azulejos. Imagino o exercício fascinante de descobrimento de seus desenhos e pinturas, que podem ainda ser recuperados para a produção de azulejos que acabou nunca executando. Creio ser esse resgate um momento importante de darmos à obra de azulejaria de Noel Marinho a dimensão que merece.”

André Aranha Correa do Lago
Diplomata e crítico de arquitetura

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