Veja o que 9 influenciadores dizem sobre as mudanças que ocorrerão no futuro

O que esperar quando a vida voltar ao normal? Curiosa em saber essa resposta, investiguei o que influentes figuras contemporâneas têm dito sobre essa questão na imprensa. Aqui, reunimos os depoimentos de filósofos, como o brasileiro Mário Sérgio Cortella e o suíço Alain de Botton; do estilista italiano Giorgio Armani; da trend hunter holandesa Eli Edelkoort; do presidente da IBM, Arvind Krisnna, entre outros. O grupo demonstra suas visões sobre o que enfrentaremos quando deixarmos o isolamento social para trás.

Alain de Botton, filósofo e escritor suíço, autor entre outros de “A Arquitetura da Felicidade”

“Nós vamos — um dia — recuperar nossas liberdades. O mundo será nosso para vagarmos mais uma vez. Durante períodos de confinamento, além dos inconvenientes óbvios, podemos apreciar um pouco do que nos é concedido quando perdemos nossas liberdades costumeiras. Não pode ser coincidência que muitos dos maiores pensadores do mundo tenham passado uma quantidade incomum de tempo sozinhos em seus quartos. O silêncio nos dá a oportunidade de apreciar grande parte do que geralmente vemos sem nunca perceber adequadamente, e entender o que sentimos. Não fomos trancados: ganhamos o privilégio de poder pensar, de viajar por uma gama de continentes desconhecidos.

Um dia, a crise que assola o mundo e nossas mentes será história. Mas não será esquecida facilmente. Teremos a sensação de que havia um mundo antes e outro que veio depois. O contraste será espantoso e confuso. Não está em nossas mãos a chance de evitar a crise, mas depende muito de nós determinar o que a crise pode significar. Como na vida pessoal, os colapsos têm a capacidade de levar a avanços. Que avanços podem vir? Já podemos nos perguntar como idealmente queremos que o mundo seja depois.”

(Via O Globo)

Arvind Krishnna, presidente da americana IBM

“A transformação digital dos negócios, que deveria durar alguns anos, está agora sendo compactada em alguns meses. Se existe uma lição desta pandemia do covid-19 é a importância das soluções de tecnologia que permitem agir com velocidade, flexibilidade, discernimento e inovação. As plataformas tecnológicas são a base das vantagens competitivas do século 21.

Elas determinam o quão rápido uma empresa pode se readequar para atender novas oportunidades de mercado, o quão bem ela serve aos seus clientes, o quanto ela pode crescer e o quão rápido ela pode responder a uma crise como a que estamos enfrentando. Nesse cenário, duas tecnologias são imprescindíveis: a inteligência artificial e a capacidade de operar nuvens híbridas, que misturam serviços hospedados em data centers de terceiros, a nuvem pública, e serviços em data centers da própria empresa, a nuvem privada.”

(Via Exame)

Bill Gates, fundador da Microsoft

“Muitos esperam que a vida retorne ao normal em poucas semanas. Infelizmente, isso não vai acontecer. Eu acredito que a humanidade vencerá essa pandemia. Mas somente se a maioria da população estiver vacinada. Até lá, a vida não será a mesma. Mesmo que os governos permitam que os negócios sejam reabertos, os seres humanos têm uma aversão natural à ideia de se colocarem em risco. Aeroportos não terão grandes filas, arenas esportivas ficarão vazias e a economia mundial ficará abatida, porque a demanda seguirá baixa e as pessoas consumirão de forma mais conservadora.

Minha esperança é que, até o segundo semestre de 2021, indústrias ao redor do mundo produzam uma vacina em série. Caso isso aconteça, será um feito para a ciência…

Acredito que vamos aprender como após 1945. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, líderes criaram instituições internacionais para que conflitos como esses não acontecessem mais. Depois da covid-19, líderes terão de se preparar para se defender das próximas pandemias. Eu espero que as nações mais pobres sejam incluídas nessa conversa, especialmente quando o assunto for o desenvolvimento do sistema público de saúde. A pandemia mostrou que vírus não respeitam fronteiras e todos nós estamos conectados biologicamente.”

(Via revista Época Negócios)

Li Edelkoort, trend hunter holandesa, em Live para o JK Iguatemi

“Há uma curva de aprendizado com essa pandemia. O vírus vem mostrar que já sabíamos o que tínhamos de fazer: desacelerar, ter menos estresse, uma vida melhor, não viajar tanto, não consumir tanto… que temos de ser muito mais cuidadosos com o planeta, mas também com nós mesmos, porque estamos vivenciando um perigoso período de estresse, que leva ao suicídio.

De repente, temos esse momento em que devemos pausar. E eu acho que o mundo será completamente modificado pelas pessoas que pensam em melhorar seu futuro. Espero que desta vez não nos esqueçamos depois de três anos, como aconteceu após o episódio de 11 de setembro. Essa é uma experiência tão profunda, ver todo mundo em confinamento é como estar em uma clínica mundial da Betty Ford, onde você se livra de todo o nosso vício em trabalho… então acho que esse momento vai realmente ajudar as pessoas a refletir sobre sua rotina.”

Michel Houellebecq, escritor francês e autor de “Plataforma” e “Submissão”

“Não acredito nem por um segundo nas declarações do tipo ‘nada será como antes’. Pelo contrário, acredito que será exatamente igual. Não vamos acordar depois do confinamento em um novo mundo, será o mesmo, mas um pouco pior. A epidemia do coronavírus deveria ter como principal resultado a aceleração de algumas mudanças em curso, em particular a diminuição do contato humano. A crise oferece uma magnífica razão de ser para esta tendência acentuada: uma certa obsolescência que parece afetar as relações humanas.”

(Via IstoÉ)

Leandro Karnal, historiador brasileiro e professor universitário

“Na tradição histórica, depois de um período de recolhimento e morte, há uma grande explosão de vida. É o caso do Renascimento após a Peste Negra. Depois da Revolução Francesa, a moda em Paris se tornou muito extravagante e internacionalmente famosa. Haverá uma tendência a uma explosão de sociabilidade em um primeiro momento.

O primeiro fator de uma epidemia, guerra ou revolução é acelerar processos que já estavam em curso. Essa é uma mudança irreversível. Nós estamos vendo a história mudar tão rapidamente que, há três meses, se alguém visse como vi hoje tantas pessoas entrarem de máscara no prédio, seriam detidas por tentativa de assalto. Hoje, quem não está de máscara é visto como infrator.

…Há um ano reclamávamos que tínhamos pouco tempo para ficar em casa. Eis que todo mundo foi jogado dentro da família dia e noite.

No caso do Brasil, as famílias encaram de maneira diferente a pandemia, de acordo com o poder aquisitivo. Não existe uma elite brasileira, existem várias elites. Aqui, o que a epidemia trouxe à tona, de forma cristalina, é uma desigualdade tão brutal, evidente, que até para a morte somos distintos. As classes média e alta envolvem um debate sobre como lidar com o tédio e com as crianças em casa. A classe mais baixa pensa em sobreviver e o risco de perder o emprego. Somos um país que já estava imerso na informalidade, e ela foi atingida como um raio pela epidemia… Não espere o futuro para ser feliz, não dá para acreditar que a felicidade será sempre adiada para um próximo momento.”

(Via CNN Brasil)

Luiz Felipe Pondé, filósofo e escritor

“A humanidade já passou por ‘n’ epidemias. Não uma que viajasse de companhia aérea tão rápido pelo mundo inteiro, mas a nossa civilização é a menos preparada para lidar com isso. Não do ponto de vista tecnológico, mas para lidar com a incerteza. A ansiedade relacionada à incerteza é muito forte na nossa época, pois não estamos acostumados. O aumento da ansiedade me parece uma decorrência natural e saudável…Muita gente vai lidar com isso tomando remédio, ansiolítico, que derruba o desejo pela vida. O desconhecimento de como age o vírus já causa inquietação.

Na China, no fim da quarentena, houve mais divórcios. Aqui também vai haver. As pessoas vão descobrindo que os relacionamentos são mantidos pelas horas que a gente não está junto. O relacionamento saudável é mantido inclusive pelas ausências. A procura pela fé também deve subir. Em momentos de perda de patrimônio, do casamento, filhos, pais, pessoas amadas em geral, grana, as pessoas passam por conversões religiosas. Nesses momentos, elas se convertem, vão para religiões que não tinham ou voltam a praticar as de origem. Há um vínculo direto entre o sentimento de perda e a busca religiosa. No momento da epidemia isso salta aos olhos.

Eu acho que o mundo imediatamente pós-pandemia vai ser mais difícil do que era. Mais violento, explorador, pessoas com mais fome. Momentos de grandes sofrimentos são também momentos de virtudes raras. Eu gostaria de chegar no mínimo no mundo que a gente tinha, nem no mundo melhor nem no pior.

As relações interpessoais não deverão ser substituídas pelo mundo remoto, como somos obrigados a viver hoje. O remoto é ótimo e será usado melhor. Mas a vida é presencial, se passa onde você possa dar um beijo em uma pessoa de fato. Nós somos uma espécie de toque. Quando acabar essa proibição, é possível que a gente se abrace mais, se beije mais, mas vai passar rápido.”

(Via CNN Brasil)

Mario Sérgio Cortella, filósofo

“A expressão ‘ninguém larga a mão de ninguém’ agora ganha outra percepção, ninguém segura a mão de ninguém no sentido físico, para evitar qualquer eventual contágio, mas também ninguém abandona outras pessoas no sentido virtual, no sentido afetivo e humanitário. Claro que teremos no pós-pandemia, um tempo em que a outra pessoa será alguém que me fará mal, mesmo sem encostar em mim, já temos isso no dia a dia com a brutalidade e a violência, mas não com a invisibilidade. Um dos rescaldos que teremos será como nós estabeleceremos mecanismos de aproximação, teremos que balancear uma convivência no dia a dia e o espaço de cada um, até que os laços possam se juntar de novo. No momento este é um trauma que vamos carregar.

Minha expectativa é de que nós aprenderemos alguma coisa, que sairemos desta tempestade com a percepção de que devemos antecipar a cautela, nos organizar, porque outros momentos como este poderão vir à tona novamente, mas de modo esperado.

No campo dos valores, eu tenho esperança sobre a convivência desejada, a expressão da solidariedade, a capacidade da compaixão, o revigoramento de uma ciência que se  coloca a serviço da humanidade e não exclusivamente da atividade mercantil, por isso sim, um desejo que isso venha a acontecer. Já a expectativa não é necessariamente de uma humanidade nova, mas uma humanidade ainda assustada, ainda em estado de perplexidade, tentando entender coisas que só ficarão claras, talvez, em muitos anos.”

(Via CNN Brasil)

Giorgio Armani, estilista italiano que publicou uma carta aberta ao mundo da moda

“O declínio do sistema de moda como o conhecemos começou quando o segmento de luxo adotou os métodos operacionais da moda rápida na esperança de vender mais, esquecendo que o luxo leva tempo para ser alcançado e apreciado. O luxo não pode e não deve ser rápido. Não faz sentido que minhas roupas, que ficam na loja por três semanas, tornem-se imediatamente obsoletas e sejam substituídas por novas mercadorias, que não são muito diferentes das anteriores. Eu não trabalho assim, acho imoral fazê-lo.

Sempre acreditei na elegância atemporal, na criação de roupas que permanecerão ao longo do tempo. Trabalho com minhas equipes há três semanas para que, após o isolamento, as coleções de verão permaneçam nas butiques pelo menos até o início de setembro, como é natural. E assim faremos a partir de agora. Essa crise também é uma oportunidade de restaurar o valor da autenticidade: basta de moda como comunicação pura…

Eventos especiais devem acontecer em ocasiões especiais, não como rotina. O momento é turbulento, mas também nos oferece a oportunidade única de corrigir o que está errado, de recuperar uma dimensão mais humana. Nesse sentido, estamos todos unidos. Para o varejo, esse será um importante teste de estresse e difíceis semanas virão pela frente. Mas temos que operar em uníssono: talvez essa seja a lição mais importante desta crise.”

(Via Estadão)

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