Limites, por Shirlei Zonis

abril 2021 | Design, Arquitetura

Ontem, no meio da tarde, recebi fotos e vídeos de uma cena triste demais. A FAU/UFRJ, minha casa e de tantos amigos de uma vida, arquitetos queridos, estava em chamas, mais uma vez.

Minha filha Nina, que acaba de apresentar um trabalho de pesquisa realizado no NPD (núcleo de pesquisa e documentação), estava em prantos com seus colegas, todos tremendamente abalados, vendo aquele espaço se dissolvendo em chamas. Arquivo rico de nossa memória e cultura. A boa notícia – apenas uma pequena parte do acervo foi atingida!

Não é tão distante o último incêndio ocorrido em 2016, que deixou a faculdade com aulas nos corredores, em outros edifícios do campus ou interrompidas, bem antes que sonhássemos com o distanciamento imposto por uma pandemia.

Caramba, novamente um incêndio?!

Atordoada, lembrei de um ditado e minha avó que dizia: Senhor, por favor, me assuste, mas não me castigue! Uso muito esse ditado quando alguma coisa dá errado no trabalho ou na lida diária, porque aproveitar o erro como aprendizado e experiência me tira do lugar do desespero e coloca numa posição proativa. Como diz o velho e sempre sábio Einstein: não adianta querer mudar, se continuamos agindo da mesma forma (ou algo nesse sentido).

Até quando precisaremos nos assustar, para sairmos do lugar da inação desesperançada?

Esse último ano testou nossos limites em diversos aspectos e nos colocou muitas vezes frente a frente com impossibilidades de continuação, sofrimentos, coisas a resolver que são adiadas. Num momento limite, elas vêm à tona, para cobrar seu preço.

Eu falava disso quando me referi à demanda de novos e antigos clientes por espaços individuais. As casas Tangram do eu sozinho – talvez frutos de relações que não se adequaram ao novo tempo ou já não se adequavam mesmo antes – produziram núcleos independentes de moradia.

Há também aqueles que optaram por definir seus espaços dentro de casa, com mais rigor e respeito pela privacidade, porque a opção de permanecer em família ainda foi a escolhida.

Em função destes limites físicos que viraram demanda, no lugar dos antigos espaços amplos em que várias funções se misturavam para a convivência – estúdios, salas/cozinha, home theater, todos juntos –, recebo agora cada vez mais demandas de divisão e repartição de  cômodos. Cada um na sua casinha, mesmo que ainda em conjunto.

Digo sempre que não há limites para a apropriação de um espaço, o cardápio é amplo, o importante sempre será a valoração da necessidade de quem o habita. Do seu desejo, esse que é líquido e rápido, que está sempre um passo à frente de nosso alcance e, por isso mesmo, nos move e mantém vivos.

Limites são questões pessoais, interpessoais, internas e externas ao indivíduo. Temos o fora e dentro de casa, e o fora e dentro de nós. Por mais que nos deixemos absorver pela rotina diária, estaremos sempre tateando quando se trata da sua variação.

Voltando à FAU, ao ponto em que essa reflexão teve início, devemos muito a ela, que nos acolheu, formou e referenciou na vida profissional. Foi lá que encontramos amigos de uma vida inteira. Sobressaltados, ontem mesmo nos reunimos virtualmente para estudar como ajudar a cuidar dessa querida casa. Entendemos que os limites estão sendo testados.

Dessa vez, que bom, a maior parte do acervo está preservada.

Mas me volta a pergunta:

Até quando precisaremos ser assustados?

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Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

Casa Tangram, por Shirlei Zonis

No início da quarentena apostei que as cozinhas iriam ser o grande objeto de mudanças nas casas de nossos clientes. E ao longo de 2020 elas realmente foram se apresentando, confirmando as previsões.

Cantos, por Shirlei Zonis

Cada um terá a sua aventura para contar sobre 2020. Para mim um ano de muitas histórias.

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Referências, por Shirlei Zonis

Referências são importantes, nos orientam, dão chão, tranquilizam. Lembram caminhos percorridos quando estamos perdidos. São como sentinelas, faróis em dias nublados.