Lar, por Shirlei Zonis

maio 2021 | Design, Arquitetura

Uma amiga me conta da vista que tem da janela de sua quarentena em Singapura. Serão quinze dias de um visual panorâmico para... um prédio de estacionamento! Em Singapura há vários, porque os carros não têm permissão de estacionar nas ruas. Interessante essa proposta urbanística, mas o que me chamou a atenção foi esse estar dentro de um quarto de hotel, confinada por tanto tempo.

Ela conta que não está muito diferente do que viveu este último ano na Itália, numa sucessão de lockdowns, e que já está acostumada a ficar dentro de casa. Trouxe seus livros, séries e filmes para assistir, atende seus clientes online e, acima de tudo, está bem acostumada, e por isso tranquila em ficar consigo mesma. A ida para Singapura foi para acompanhar o parto da primeira neta.

Coincidência, no mesmo dia em que falamos dessa vista do estacionamento, conversei com outro amigo, que está visitando a filha que mora em Israel. E ele comentou que está com a vida social tão agitada lá que às vezes se confunde com o verdadeiro endereço de sua casa – se é lá ou aqui. Ou até nenhum dos dois…

Achei incríveis esses pensamentos num momento em que o mundo é global, mas nem tanto. De uma certa forma estamos nos enclausurando em feudos, com restrições de vistos e voos em vários países. Como falar de tanta elasticidade em relação a nossas casas?

Me lembrei das estantes cheias de porta-retratos que nos sinalizam que estamos de volta a nossa caverna, nos tranquilizam. Fotos que nos lembram momentos e sorrisos felizes. Afetos, maternidades, campeonatos, sucessos, inaugurações.

Memórias.

Hoje essas memórias são facilmente transportáveis em celulares, pen-drives, HDs portáteis em várias formatações. Podemos nos sentir em casa facilmente, a depender de memórias… Não nos sentimos tão perdidos ou desamparados se estamos longe de nosso quartel general, porque acessamos fisicamente ou pelas nuvens tudo que precisamos, nosso acervo pessoal, nossa vida.

Será que a resposta à charada está nesse acesso?

Não acho que seja tão simples, mas já é um começo, são ferramentas para facilitar sem dúvida.

Eu voltaria à última frase da minha amiga em Singapura, que diz estar acostumada a ficar consigo mesma.

Talvez o melhor e mais eficiente HD para essa mobilidade seja aquele interno, que carregamos com as marcas verdadeiras, as que são perenes, e nos acompanham incondicionalmente. Nossas nuvens estão nessa placa mãe que vai sendo indexada desde muito cedo e a qual precisamos acessar para resolver constantes questões. A vida bate à porta a cada dia e não perdoa se não atendemos a seu chamado.

Essa casa desenhada nessa placa mãe é a que podemos considerar como nosso LAR.

Pode ser cheio de porta-retratos ou mais clean, clara ou com uma luz mais tênue, pequena ou espaçosa. Ter cozinha americana, ou um cantinho mais fechado para o preparo dos pratos. Ou até nem ter cozinha, ou sofá.

Acessar estes desejos verdadeiros e satisfazê-los é o sonho de todos nós que acompanhamos nossos clientes em tantas viagens.

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Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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Limites, por Shirlei Zonis

Até quando precisaremos nos assustar, para sairmos do lugar da inação desesperançada?

Casa Tangram, por Shirlei Zonis

No início da quarentena apostei que as cozinhas iriam ser o grande objeto de mudanças nas casas de nossos clientes. E ao longo de 2020 elas realmente foram se apresentando, confirmando as previsões.

Cantos, por Shirlei Zonis

Cada um terá a sua aventura para contar sobre 2020. Para mim um ano de muitas histórias.