O alemão Jürgen Mayer H. está à frente de um projeto residencial em Santa Catarina, seu primeiro no Brasil

Responsável por trabalhos que vão desde planejamento urbano, passando por casas e prédios, até móveis e objetos, o arquiteto Jürgen Mayer H. foi eleito ‘Designer do Ano’ pelo BOOMSPDESIGN. Embora o evento de design ainda não tenha data definida por causa da pandemia, seu idealizador, Beto Cocenza, estuda a melhor forma de Mayer interagir com o público brasileiro, presencialmente ou pela web. Dentre as novidades do alemão, está um projeto residencial em Santa Catarina, que ele dá mais detalhes na entrevista exclusiva para a Olhares.News.

Jürgen Mayer H. comanda o estúdio que leva seu sobrenome desde 1996 e tem no portfólio cases famosos como o Metropol Parasol, reurbanização da Plaza de la Encarnación, em Sevilha, na Espanha. Sua formação acadêmica passa por três renomadas universidades: Stuttgart, na Alemanha, Cooper Union, em Nova York, e Princeton, em Nova Jérsei. Já teve seus trabalhos expostos no MoMA de Nova York e São Francisco, no Instituto de Arte de Chicago, no Kunstbibliothek Berlin, entre outras prestigiadas instituições. Veja o que ele diz nesta entrevista exclusiva.

Seus prédios possuem formas bem distintas. Quais, ou quem, são suas maiores influências?

Arquitetura ainda é uma das mais raras formas de expressão na vida cotidiana, o que permite uma experiência de outros mundos com diferentes valores. É importante buscar experiências, comparar e aprender uns com os outros, trocar ideias com países e suas estruturas políticas e sociais, para que a arquitetura, como um elemento transformador da sociedade, possa enfrentar os desafios. A arquitetura deve atuar como um ativador para levar as pessoas de uma expectativa passiva para um nível de envolvimento de participação e atenção.

Conte sobre o projeto que você está fazendo em Santa Catarina?

A Comunidade Gaspar é um residencial em construção, que vai oferecer espaços de socialização, conferências e eventos culturais. O centro comunitário abrigará salas de reuniões, spa, academia, restaurantes e piscina. A arquitetura estrutural começa com um generoso paisagismo no telhado que ondula para diferentes alturas espaciais. As saliências em balanço proporcionam sombra e resposta climática. O processo iniciou em 2018, quando fomos convidados para a equipe que mescla designers brasileiros a europeus. Agora estamos na etapa de desenvolvimento de design de interiores, financiamento e avaliação do cronograma da construção. Esse é um projeto da Idealiza Urbanismo, de São Paulo. O centro comunitário é desenhado pelo meu escritório, em Berlim, e será implementado pelo arquiteto Matheus Diniz, do MDAD, de São Paulo.

Nós estamos vivendo tempos difíceis, que podem redefinir vários aspectos das nossas vidas. Como você enxerga o futuro do urbanismo? Teremos alguma mudança na forma de planejar as cidades e espaços urbanos?

Meu escritório investe muito em pesquisas de design e na investigação conceitual da arquitetura, para criar construções que torne visível as qualidades únicas do lugar. Nós somos apaixonados por inovação e tecnologia, então é importante trocarmos ideias com outros profissionais para obter insights multifacetados. A arquitetura contemporânea é uma expressão da sociedade e, portanto, em tempos de dissolução de fronteiras, é importante olhar longe. O papel da arquitetura é oferecer novas possibilidades técnicas para construir eficientemente e mobilizar os recursos tecnológicos adequados. Atualmente, tudo isso precisa acontecer tendo em mente a sustentabilidade. Sustentabilidade normalmente só se refere a um equilíbrio ecológico, mas é mais importante considerar seu significado cultural. Como a demanda por sustentabilidade se encaixa na vida cotidiana, também do ponto de vista estético? Quais são as consequências sociais e quais são os componentes econômicos corretos? Existem novas abordagens que incluem a conscientização sobre o meio ambiente e a forma que nós produzimos espaços e o além desses espaços, quando se trata de reciclagem e flexibilidade de reutilização. Esses aspectos devem ganhar atenção no futuro.

Veja abaixo alguns de seus projetos (@juerge.mayer.h; @boomspdesign):

Metropol Parasol, em Sevilha, Espanha

Fotos: Fernando Alda, David Franck, Sama J. Canzian / @sezyilmaz / Reprodução/Instagram

A estrutura, feita com cerca de 3 mil peças de madeira em formato de cogumelos, virou um ícone na Praça de La Encarnación, abrigando museu, mercado, bares, restaurantes, uma praça elevada, além de um terraço panorâmico no topo da construção. O projeto contemporâneo na cidade medieval foi inaugurado em 2011.

Museu Garagem, em Miami, Estados Unidos

Fotos: Imagen Subliminal (Miguel de Guzman + Rocio Romero)

Localizado no badalado Design District, o Museu Garagem, de 2018, define o edifício de uso misto, com sete pavimentos e espaço para lojas no térreo e 800 veículos. Leva assinatura do arquiteto e curador Terence Riley, que convidou quatro diferentes escritórios para fazer intervenções na fachada. Jürgen Mayer H. ficou responsável pela intervenção Hugs and Kisses (XOX), composta por diferentes peças que criam um grande quebra-cabeça, inspiradas nas formas aerodinâmicas do design automotivo.

Border Checkpoint, em Sarpi, Geórgia

Fotos: Marcus Buck

O edifício, finalizado em 2011, fica na fronteira com a Turquia, dando boas vindas a quem chega na Geórgia, representando a atual ascensão do país. A torre de sinuosas curvas tem vista para o Mar Negro, que banha as duas nações, e abriga cafeteria, espaços de trabalho e salas de reunião.

Casa Morgana, na Alemanha

Fotos: David Franck, J.MAYER.H

A Casa Morgana é composta por vários cubos de tamanhos diferentes, colocados em níveis escalonados, um em cima do outro, e conectados por uma escada central. O edifício, de 1972, e seus anexos, de 1991, foram reformados por Jürgen Mayer H., que manteve estética arcaica e brutalista original. Tetos e paredes foram removidos na reforma, finalizada em 2019, e foram feitas adições arquitetônicas em concreto aparente. Duas grandes portas pivotantes de vidro se abrem para o jardim externo, com paisagismo assinado pela alemã Tita Giese.

Casa n.n, na Rússia

Fotos: Ilya Ivanov

Nos arredores de Moscou, ergue-se sobre a paisagem a Casa n.n. Trata-se da “exploração espacial entre ocultação e exposição”, explica a descrição do projeto, finalizado em 2019. As curvas do edifício formam transições orgânicas entre interior e exterior, assim como os telhados verdes, que também auxiliam no isolamento térmico. A fachada envidraçada circunda o edifício, permitindo a entrada de luz natural, mas, graças às colinas suaves no desenho e espaços aéreos fechados, garante privacidade aos espaços internos.