A obra do mestre do mobiliário moderno é reconhecida mundialmente

Poltrona Dinamarquesa, uma das primeiras peças desenhadas por Jorge, em sua casa em São Paulo. Foto: Ruy Teixeira.

Último dos sobreviventes da geração de profissionais responsáveis pela icônica produção brasileira de móveis modernos, Jorge Zalszupin completa 98 anos neste primeiro de junho de 2020, na mesma casa onde mora há quase 60 anos em São Paulo. Em 2015, a Olhares teve a oportunidade de publicar dois livros sobre o mestre, o primeiro sobre sua obra de design e, o segundo, uma autobiografia escondida há anos em suas gavetas.

Foto: Arquivo de família.

Na longa vida de Jorge, o design de móveis foi uma decorrência da vocação para a arquitetura. E foi o mesmo motivo que o trouxe ao Brasil. “Num belo dia (acho que foi em 1936), estava andando pela avenida Nowy Swiat (novo mundo). Esta era uma das avenidas mais elegantes e interessantes da cidade, por causa das vitrines. O trecho que eu seguia era perto de casa e consequentemente eu o conhecia pedra por pedra. Por que então parei na frente da vitrine de uma livraria conhecida, para olhar os livros expostos? Talvez porque […] apresentavam um patchwork colorido e atrativo.

Acabei entrando na livraria. Acho que era a primeira vez que fazia aquilo, exceto pelos sebos em que ia e que vendiam livros escolares. Aproximei-me de uma grande mesa coberta com maravilhosas edições de livros de arte. De repente, meus olhos se puseram num volume com a capa de juta e duas letras prensadas, ‘LC’, em preto. Abri e descobri o inimitável traço de Le Corbusier. Estava tão impressionado com a beleza do livro que folheei mais alguns em volta dele. Assim descobri os desenhos do arquiteto Mendelsohn e alguns outros.

Nunca quis ser bombeiro, ou polícia, nem nada que exigisse força e coragem, mas já pensei em ser um engenheiro na indústria de carros, depois de rádios. Tudo sumiu num segundo. ‘Serei arquiteto e pronto.’”

Livro Jorge Zalszupin: design moderno no Brasil, publicado pela Olhares.

Depois desse primeiro encantamento, relatado na autobiografia De * pra lua, a vida de Jerzy, como era seu nome original, teve muitas reviravoltas. Foi interrompida pelo terror nazista, que dominou a Polônia, exterminando a grande maioria dos judeus daquele país. Ainda que em situação clandestina e exposto às dificuldades radicais do período, conseguiu se formar arquiteto na Romênia ainda no período de Guerra. Depois, trabalhou no interior da França reconstruindo casas destruídas pelos ataques inimigos. E, um dia, resolveu migrar para ‘o país da nova arquitetura’, à qual curiosamente foi apresentado, mais uma vez, por uma publicação, a revista francesa L’architecture d’aujourd’houi.

Quando chegou ao Rio de Janeiro, Jerzy tinha poucos contatos e praticamente nenhum dinheiro. Bateu à porta do escritório de grandes nomes da arquitetura da época, sem sucesso. Quem o salvou da bancarrota foi um outro arquiteto polonês já estabelecido em São Paulo, Lucjan Korngold. Dali, não parou de trabalhar, se naturalizou, trocou o primeiro nome para Jorge, fundou seu escritório de arquitetura, casou-se e teve filhas… pelas tantas, iniciou um negócio adicional de móveis, projetados a princípio para suprir seus próprios projetos.

O mobiliário produzido no Brasil entre os anos 1940 e 60 é saudado no mundo todo por se apropriar de forma elegante de elementos locais como a madeira de lei, a tradicional palhinha e as formas curvas da arquitetura moderna. Ao mesmo tempo em preserva um diálogo com a estética que se desenvolvia nos grandes centros, a produção do período foi profunda e continuamente marcada por essa busca por legitimar uma identidade nacional e autônoma, como era comum aos movimentos modernistas da época.

Mesas Pétalas e Drink e peça publicitária da L’Atelier, anos 60.

Entretanto, é interessante notar a presença de muitos estrangeiros entre seus principais protagonistas, contribuindo com uma multiplicidade de percepções sobre aquela nova identidade em construção. Assim, o móvel moderno brasileiro ganhou algumas de suas feições mais originais e hoje conhecidas pelo trabalho criativo de nomes-chave como o português Joaquim Tenreiro e os italianos Lina Bo Bardi, Carlos Hauner e Giuseppe Scapinelli, além de Zalszupin.

Ele projetou verdadeiras joias de jacarandá, trabalhou no limite dos materiais e introduziu novas tecnologias no mercado brasileiro. Como relata a professora Maria Cecilia Loschiavo, especialista de referência sobre o móvel moderno brasileiro e autora do livro Jorge Zalszupin: design moderno no Brasil, a L’Atelier se tornou pioneira na produção semi-industrializada e na comercialização em escala nos anos 1960 e também no uso intensivo de design em produtos de plástico nos anos 1970, apostando sempre na formação de um novo público consumidor.

“A dinâmica do percurso de Jorge Zalszupin no design se iniciou na década de 1950, no âmbito da tradição artesanal da técnica e do trabalho em madeira, nos padrões do gosto e das encomendas de clientes. Nesse período juntou o poder do artesão com o do designer e criou a L’Atelier.

Carrinho de Chá, de 1959. Foto: Ruy Teixeira.

A produção se transformou e a empresa realizou com determinação a experiência de industrialização do móvel no Brasil. Jorge Zalszupin acreditou na possibilidade de produzir em série e criar linhas de produtos. Foi um momento de inflexão, que favoreceu a implantação e a consolidação do design moderno.

Essa visão transformadora implicou na contratação de designers e arquitetos para desenvolver projetos de produto. Jorge Zalszupin criou um mercado de varejo para o design, expandindo gradativamente o alcance do caráter modernista da mobília. Anos depois, dedicou-se ao móvel de escritório, realizou uma breve experiência de produção de mobiliário escolar e também de experimentação com outros materiais. Suas criações vão do jacarandá ao plástico.”

Hoje, além da extensa obra arquitetônica – que inclui o projeto de prédios na Avenida Paulista, casas memoráveis em São Paulo e no Guarujá em seus áureos tempos… –, Zalszupin é considerado um dos grandes nomes do móvel moderno brasileiro, com uma produção excepcional, especialmente em jacarandá, na década de 1960. Hoje, seus móveis vintage são ultra valorizados e dezenas de projetos da L’Atelier são produzidos em reedição pela Etel, o que demonstra a capacidade que Jorge teve de criar uma obra atemporal.