Home ou office?, por Shirlei Zonis

setembro 2020 | Design, Arquitetura

Um cliente comentou recentemente comigo: “e o cafezinho, como fica agora?”

Ele sente muita falta dos intervalos e encerramentos dos eventos, onde se dão os encontros, as sinergias que geram novos produtos. Sim, porque, segundo ele, não é só de reuniões produtivas via zoom que vivemos. Não é à toa que todas as empresas de inovação implantaram espaços de convivência, lazer criativo, salão de trabalho sem divisórias!

Até anteontem, o entendimento de que o coworking gera conteúdo era o must do velho normal, ele argumenta. Timidamente tenta dar razões do próprio rendimento do trabalho para justificar sua queixa. Porque uma coisa está ligada a outra, e a outra, e a outra, numa roda que gira há muito tempo.

Somos gregários, e teimosamente persistimos na troca de afetos. É nosso vínculo com a humanidade, nossa possibilidade de existir. As relações do dia a dia são parte do nosso investimento emocional e a grande maioria que produz em escritório, no mundo corporativo, deverá mesmo se ressentir com esse distanciamento.

Mantendo todos os cuidados, as atividades estão voltando e deixando as ruas mais cheias. Trocamos olhares e sons abafados pelas máscaras, mas teimamos em nos relacionar, e que bom que é isso! Ainda que tateando, caminhamos em busca do outro, que nos referencia.

Com a consagração do trabalho em home office, e parece que é uma tendência que veio para ficar, sinto que há uma questão incomodando de maneira geral.

Criar uma estação de trabalho em casa tem sido uma demanda cada vez mais frequente, bem anterior à pandemia. Congestionamentos de trânsito nas grandes cidades, facilidades de intercomunicação e tecnologia já tornaram essa uma opção sólida.

Só que agora não é de um recurso que estamos tratando. Várias empresas estão migrando para esse tipo de configuração, de forma permanente. Seus espaços agora estão sendo esvaziados, com a recente descoberta de que o mundo continua a girar eficientemente com trabalho não presencial. Já há até estudos se antecipando sobre novas tendências de ocupação dos centros. Quem sabe esse movimento até ajude a resolver os eternos déficits habitacionais, modificando o uso do solo, apontam os futuristas.

Por outro lado, adaptar o que era eventual, opcional, para algo diário, não é tão fácil quanto pode parecer à primeira vista, ainda que nesse período de quarentena tenhamos feito um treinamento. Passamos a dar conta de questões ergonômicas, de infraestrutura e manutenção, que antes podiam ser adiadas. Isso tudo é contornável; se já não existia, será objeto de um desenho do espaço.

Mas há outras estórias, além disso. Ouvi um depoimento sobre esse duplo uso do espaço da casa. Afinal, home ou office, questionou meu vizinho um tanto aborrecido.

A casa, lugar de retorno depois de um dia de trabalho, abrigo, intervalo, repouso… essa acabará por imposição abandonando esse papel refrescante para assumir de vez também a cara de escritório? Ele disse o quanto era difícil abstrair do ambiente depois de um dia inteiro de trabalho, e caminhar para a cama sem olhar de canto de olho para o computador e tudo que o esperava para o dia seguinte. Todos os outros espaços da casa estão para ele a passos contados do office. Percebi que na verdade ele se sente prisioneiro de sua casa.

Entendo o quanto pode ser custoso abrir mão desse vai e vem diário, ritmo que se alimenta e confere a casa seu papel de pele, proteção que nos contém, e nos renova. Uma troca de atmosfera, quase respiração. Minha resposta a essa indagação aflita foi rápida para acalmar (a ele e a mim mesma, confesso).

– Torço pela diversidade, alternar novas possibilidades com velhas qualidades.

olhshirlei

Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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