Quando os interiores ficaram modernos

junho 2020 | Design, Arquitetura

Casa da rua Bahia, construída em 1930.

As primeiras casas modernistas do Brasil foram projetadas e construídas em São Paulo pelo arquiteto russo Gregori Warchavchik entre 1928 e 1932. O desejo de transformação dos padrões culturais que vinha se manifestando nas artes desde a célebre Semana de 22 ainda não havia ganhado o tecido urbano, e não foi sem causar espanto que se deram estas primeiras experiências. Mas, se por um lado houve muitas críticas e sinais de reprovação destinados àqueles projetos de linhas duras, sem ornamentos na fachada, eles tinham a força de ser uma bandeira do pensamento moderno. Eram casas-conceito, orgulhosas de sua excentricidade tanto quanto de sua racionalidade projetual.

Casa da Rua Santa Cruz, que o arquiteto construiu para sua própria moradia, hoje disponível à visitação pública.

As fachadas eram, obviamente, a face mais visível dessa nova forma de morar, e se perpetuaram no imaginário da modernização da arquitetura brasileira por seu pioneirismo. Entretanto, para consolidar o novo estilo de vida proposto pela arquitetura moderna, a experiência deveria ser integral. Assim, Warchavchik incluiu em sua atuação o projeto de interiores e mobiliário compatíveis com premissas conceituais de suas casas. Sobre esta faceta do pioneiro do modernismo na arquitetura brasileira, publicamos em 2019 o livro Gregori Warchavchik: design e vanguarda no Brasil, com a autoria do historiador Jayme Vargas e organização de Silvia Prado Segall.

Ensaio do fotógrafo Ruy Teixeira.

Além da análise do autor sobre esta produção intensa, num curto período, o livro reúne um rico acervo de croquis e imagens dos interiores registradas na época – incluindo projetos em que projetou apenas os interiores –, além de um ensaio do fotógrafo Ruy Teixeira sobre as peças originais remanescentes. Na extensa coleção de livros da Olhares sobre o design brasileiro, este título cumpre o papel de desvendar essa experiência pioneira do processo de modernização que culminou em expressões que hoje se destacam no patrimônio material do Brasil e do mundo, se desdobrando até a produção contemporânea.

A seguir, disponibilizamos o trecho do livro em que Jayme Vargas relata um episódio emblemático, a “Exposição de uma Casa Modernista”, promovida por Warchavchik em 1930, e explica a influência internacional sobre o estilo da mobília criada pelo arquiteto.

Croquis produzidos por Warchavchik para seus projetos.

"Em um passo decisivo para a continuidade da divulgação e promoção da nova arquitetura moderna, e procurando acentuar ainda mais o seu alcance, Warchavchik organizou em 1930, na recém-construída casa da rua Itápolis, uma exposição aberta ao público. A “Exposição de uma Casa Modernista” ocupava o interior do imóvel com obras de artistas como Tarsila do Amaral, Anitta Malfatti, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Lasar Segall e John Graz, e mobiliário, luminárias e outras peças de design projetadas pelo próprio Warchavchik, além de almofadas e colcha de Regina Gomide Graz e outras obras de arte e peças decorativas de autores estrangeiros, provenientes de coleções particulares. A iniciativa teve forte repercussão e atraiu um público de mais de 20.000 visitantes.

A “Exposição de uma Casa Modernista” evidencia que, ao lado do claro compromisso de propagar a linguagem moderna, a criação de mobiliário e de outras peças de design já estava, naquele momento, completamente integrada à atividade projetual de Warchavchik. Não era alheio à prática modernista da época, a ideia de “obra de arte total”. Conceito que se originara na Alemanha do século XIX, e que naquele momento compreendia a criação, sem diferenciações hierárquicas, de diversas modalidades de expressão criativa. Artes visuais, projeto arquitetônico, design de mobiliário, luminárias, vitrais e utensílios domésticos, design gráfico, ou mesmo dança e teatro compunham um conjunto coerente de elementos integrados em uma proposta afim, resultado da atuação de múltiplos autores. Entre os exemplos mais expressivos desta vertente estão a produção da escola Bauhaus, na Alemanha nos anos 1920, e do grupo De Stijl, dos Países Baixos, a partir de 1917. Uma vertente que também se apresentava na criação de mobiliário e design por nomes destacados da arquitetura moderna internacional do período, como Le Corbusier, Walter Gropius, Mies van der Rohe, Frank Lloyd Wright, Marcel Breuer, Gerrit Rietveld, entre outros.

A produção conhecida de mobília e design de Wachavchik, que se estende sobretudo de 1928 a 1935, revela uma grande proximidade com os traços da sua arquitetura daquele período. Nas peças de mobiliário prevalece a contenção formal com a total ausência de ornamentos, o encadeamento de volumes definidos por linhas geométricas e o predomínio da horizontalidade, sempre que a funcionalidade do móvel assim o permitisse. Algumas peças parecem sugerir as formas das lajes suspensas de concreto armado presentes em suas edificações. No mobiliário, a madeira é utilizada mais frequentemente do que outros materiais, como o metal, o vidro, o couro e os tecidos."