Espaços intermediários, por Shirlei Zonis

junho 2020 | Design, Arquitetura

Quem está esgotado, observando o mundo de sua casa, nem imagina o quanto podem ter sido diferentes estes últimos meses para alguns. Vivenciamos a super presença no ambiente caseiro por um longo tempo, e provavelmente estaremos ainda por um bom período experimentando esse novo viver. Normal? Não sei. Mas há outras histórias...

Às vésperas da quarentena, quando a pandemia ainda era aquela marola na Ásia, uma amiga recebeu oferta irrecusável para alugar seu apartamento no Leblon. O candidato, um executivo chinês, ficou seduzido pelo seu espaço, e a seduziu com uma oferta astronômica, mas acima de tudo, com a oportunidade que oferecia ao seu espírito aventureiro, que projetava há tempos variar de casa. Uma sacudida para quem está em fase de aproveitar a vida, filhos criados, netos queridos. Já que mora sozinha, tomou a decisão num impulso, e foi para um apart hotel traçar estratégias para buscar esse novo espaço menor que correspondesse aos seus sonhos de mudança.

A marola da Ásia veio que nem tsunami, e a pegou de surpresa, exatamente quando ela chegou ao apart. Ou seja, em tempos de quarentena, quando todos estavam com seus receios e cuidados, ela ficou sem a casa, suas referências, seus objetos, enfim, tudo que dá aquela segurança de abrigo. Além disso, sua tão sonhada aventura deixou de tê-la como protagonista, e a colocou como mais uma refém da quarentena, já que como todos, também teve que adaptar-se aos novos protocolos. E, claro, o que mais desejou naquele momento, foi estar em sua casa.

Passados estes tantos meses, hoje encontrou o novo apartamento, que vai servir ao seu momento intermediário, e poderá iniciar a aventura tão sonhada e certamente reciclada depois disso tudo.

Parece uma estória inventada, mas não. Assim como ela, há outros que ficaram no meio do caminho.

Uma professora de Filosofia que foi para Paris em fevereiro fazer o pós doutorado, e chegou junto com o vírus. Passou os dias e meses seguintes restrita à sua mansarda charmosa, olhando e namorando a cidade por trás dos vidros da janela. Aproveitou o momento para muita pesquisa, passou muito mais tempo em contato com o Brasil do que supunha quando planejou a viagem. Ficou em um espaço-tempo intermediário, e estar no meio do caminho numa hora dessas não é fácil.

Esse meio do caminho que te coloca num elevador em movimento, que para por conta da falta de energia de um blackout. E você fica ali presa, sem abrigo.

Se pensarmos nesses exemplos, estar em casa numa hora dessas é uma bênção, com certeza. Quem sabe olhar para o espaço em esgotamento e descobrir o que ele tem de macio e confortável para nos oferecer acaba podendo ser uma brincadeira deliciosa.

Respirar fundo quando o elevador para, não entrar em pânico, saber conduzir estes desafios, que podem ser também os necessários dentro do espaço em esgotamento, aonde podemos buscar uma forma mais suave de superar, escolhendo brincadeiras, cantos novos dentro da casa, utilizando as experiências como recursos transicionais.

Como a minha vizinha, que descobriu que entre o sofá e a janela, onde sempre esteve a palmeira grande em vaso esplêndido, entra um sol maravilhoso, que oferece de manhã cedo a melhor acolhida para sua meditação.

Ou o meu gerente que me contou que usou seu corredor ensolarado dentro de casa para seus treinos funcionais, corrida, agachamento, peso. Enfim, num vai e volta simbólico, próprio de um espaço intermediário ( no caso do corredor mais ainda...), brincando enquanto aguarda o desfecho da história.

olhshirlei

Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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