Do limão, a limonada, por Shirlei Zonis

junho 2021 | Design, Arquitetura

Quando vi aquele móvel imenso sendo içado até a cobertura do prédio de 15 andares – porque, monolítico, não entrava ou passava por porta alguma, não fazia a curva das escadas ou sequer era desmontável –, toda a dimensão da sua importância para o cliente se materializou para mim. Percebi que, antes de qualquer coisa que estava sendo criada ou modificada no novo espaço, ele era o principal e mais valioso objeto dentro da casa.

Era um móvel que havia sido projetado em criação conjunta do casal, e que ocupava lugar de destaque no antigo apartamento. O cliente, agora viúvo, investia num espaço só pra si e, por mais que a mudança fosse fruto de nova configuração, ele não seria capaz de abandonar o “Vicentão”, apelido que haviam colocado no enorme resultado de marcenaria rebuscada que aos poucos ia subindo até o topo do edifício. Era mesmo um apoio necessário para uma nova jornada e vinha monumental ocupar o seu lugar na sala de estar.

No projeto, envolvemos suas formas robustas com nichos leves, fazendo uma brincadeira entre o velho e o novo momento – entre o antigo e o novo desenho. Entender o processo e a necessidade de levar consigo o que representava a memória do casal nos pareceu uma boa aposta. Assim como, quando crianças, criamos nossos objetos transicionais, aqueles que nos ajudam a nos desprendermos de nossos confortos conhecidos e nos acompanham em nossas excursões no mundo externo, ursinhos de pelúcia, fraldinhas, brinquedos que guardam o cheiro e a ilusão do colo que ampara e nos ajudam a inferir no mundo externo um pouco dessa ilusão e efetuar os rituais de passagem.

Também como adultos necessitamos desses objetos para nos remeter, ainda que através da ilusão, a momentos de conforto, carinho, segurança de sermos queridos.

Todos nós, de uma forma ou de outra, praticamos essa brincadeira.

Às vezes os apegos aos espaços e memórias podem representar uma dificuldade melancólica na vivência do luto, uma paralisação em algum ponto cego, que não permite nenhuma passagem ou nova vivência. Alguns objetos são fetiches, como quando preservamos inteiramente cenários que não são mais vividos, ou sequer por vezes habitados. Espaços que existem desassociados do presente. Estes sim necessitam, a seu tempo, ser enfrentados com coragem e disposição de mudança. Mas aí já é outra experiência, que merece atenção diferenciada, não é disso que estou falando aqui.

Nessa subida lenta do Vicentão, lembrei de tantos outros equivalentes com os quais me deparei ao longo da minha estrada com clientes, e do quanto, às vezes por falta de empatia, resisti a incluir no projeto a importância que eles representavam naquele momento tão delicado de suas mudanças.

E reconheço, com um pouco de vergonha, que pratiquei com impaciência a ditadura do suposto saber – aquele lugar em que nós arquitetos às vezes nos colocamos na hora em que baixamos o volume do ouvir e aumentamos o de determinar o que cabe melhor no espaço do outro.

Na inauguração da obra, o charme dos nichos em volta do Vicentão, suavizando suas formas e ao mesmo tempo dando a ele o destaque merecido, foi a estrela da noite. Despertou curiosidade e surpresa o fato de ele estar tão presente, inteiro e, ao mesmo tempo renovado. Exercendo seu papel de mediador entre o mundo interno e externo do cliente como um objeto transicional que se preza.

Como diz aquele velho ditado, do limão a limonada.

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Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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