Casa Tangram, por Shirlei Zonis

março 2021 | Design, Arquitetura

No início da quarentena apostei que as cozinhas iriam ser o grande objeto de mudanças nas casas de nossos clientes. E ao longo de 2020 elas realmente foram se apresentando, confirmando as previsões.

Estar em casa antes da pandemia era tão raro, e por tão pouco tempo, que cozinhar já tinha entrado no rol dos objetos de desejo, desfilando a cada ano novos modelos e acessórios para os neogourmets de plantão. As cozinhas se abriram para a área social. Viraram parte do social. E assim permaneceram ao longo do último ano, mas aí já pelo motivo oposto – porque ficamos tempo suficiente em casa para produzir nosso próprio alimento, não pudemos ir a restaurantes, muitos que contavam com ajuda não puderam mais dispor dela. Ou seja, por pouca ou muita presença, a cozinha se mantém como um foco contemporâneo de atenção dentro das casas.

A nossa primeira obra, assim que flexibilizaram a quarentena, foi de fato para uma cozinha, abrindo e compartilhando o espaço com a sala, com o cardápio completo. Uma vontade de expandir o estar e transformar o tempo dos afazeres em tempo dos prazeres.

Agora, passados tantos meses de convívio intenso, coincidência ou não, os astros da última hora são os lofts ou apartamentos  single. Células que se desprenderam dos núcleos familiares para respirar longe da super convivência, e preferiram – ou descobriram que – estar a sós era a melhor pedida para o momento.

Coincidência ou tendência, os espaços pequenos, casas do eu sozinho, vêm estourando a bilheteria. E para elas são inventadas as mais variadas formas de ampliar ambientes, com diversos recursos de alta e baixa tecnologia – formando o que chamo de casas tangram.

Alguém lembra dos brinquedos de encaixe que faziam parte do currículo do jardim de infância? Meus filhos se deliciavam com os desafios e eu sempre tive muito prazer em ajudar na empreitada.

Como os tangrams, os mobiliários que se encaixam e desencaixam em muitas combinações procuram atender às expectativas das funções múltiplas que, mesmo pequeno, o novo lar deve exercer: casa-trabalho; casa-cinema; casa-cozinha; casa-descanso.

São todas as casas dentro de um só ambiente, e o contra-regra é esse “eu” que procurou estar só, o novo consumidor do novo normal, que desfruta do seu micro espaço em que, por fim, é o senhor absoluto. Ele se desdobra em malabarismos do monta-e-desmonta para poder ser o dono do pedaço.

Parei para pensar nisso quando me apareceu o quarto cliente com o mesmo perfil. Não pode ser coincidência…

De fato, nossos limites foram e estão sendo testados com a avalanche de interdições e novas posturas a serem seguidas.

E limite é coisa séria. Nem sempre conseguimos entrar em contato, mesmo com os nossos. Mas isso já é papo para um próximo artigo.

olhshirlei

Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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divan14

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