Cantos, por Shirlei Zonis

março 2021 | Design, Arquitetura

Cada um terá a sua aventura para contar sobre 2020.
Para mim um ano de muitas histórias.

Agitada, sempre me sobrou pouco tempo, ou, como diz meu sócio, eu sempre me sobrei pouco. Quando fiquei em casa por mais tempo na pandemia, em home office, procurei um cantinho pra chamar de meu, e devo confessar a vocês que não foi fácil encontrar. Arquiteta da casa (agora somos duas, porque a Nina está se formando), fiquei anos atenta aos desejos de marido e filhos no espaço, e não me debrucei sobre os meus. Casa de ferreiro…

Lembrei dos clientes a quem sempre faço essa pergunta… que coisa mais trivial – qual o seu canto preferido em casa? E de como o que me respondem é, às vezes, surpreendente. Agora percebo por experiência própria o quanto essa pode não ser uma pergunta fácil.

Há pouco tempo, uma cliente recém-separada, e com vontade de renovar e dar a sua identidade à casa que dividia com os filhos, me respondeu prontamente… não sei! Puxa, então é por aí que vamos começar, me animei. Depois de saborearmos juntas as muitas possibilidades, colocamos uma poltrona giratória na sala, que tanto servia para papear com o sofá, quanto para ver TV, e, principalmente para ler seus livros em momentos de calmaria. Caprichamos tanto naquele seu canto simbólico, que, claro, ficou disputadíssimo. Agora todos querem ser donos do cantinho dela, mas ela reafirma sua conquista a cada dia. Não dá mole, não!

Outra vez, ao iniciar um novo projeto com um velho e querido cliente, vivenciei também esta dificuldade. Ele havia comprado seu primeiro apartamento a ser ocupado em voo solo, depois de diversos casamentos. Ao sentarmos para fazer uma lista dos seus desejos, nos deparamos com um grande silêncio, uma tremenda dificuldade dele em se apoderar do espaço. Um movimento que sonhou tanto fazer e a que, talvez por querer demais, estivesse resistindo a se entregar. Então, não conseguia escolher nenhum canto da casa como seu. Aos poucos essa resistência foi se quebrando, e hoje a dificuldade é outra, a de escolher um só, pois todos os cantos são seus preferidos, o espaço é curtido com entusiasmo, fruto que foi de muito planejamento, totalmente customizado para si…

Podemos dizer que nos apropriar verdadeiramente de um espaço, dando a ele sentido, não é tão corriqueiro assim como pensam os leitores de revistas de casa. Por vezes os modelos mais nos oprimem que libertam. Ao seguirmos replicando para acertar, acabamos nos perdendo dentro do que teria que ser nosso abrigo, como estranhos no ninho.

Ou por vezes fazemos tanto para os outros se sentirem bem, que esquecemos de nos oferecer o conforto que merecemos.

Ou reverenciamos tanto a santidade do momento, que nos amedrontamos e fugimos de vivenciá-lo com inteireza.

Falamos muito disso por aqui neste ano que passou: ideais perseguidos, superegos opressores ou, simplesmente, resistência nos distanciam de viver o instante precioso do estar em casa.

Cantos da casa são incubadoras de ideias, reflexões, insights até. Pontos de encontro com a gente mesmo. Neles podemos relaxar, refletir sobre nossas paixões, desfrutar das lembranças. Viver os nossos encantamentos.

E é incrível como, depois de descobertos, merecem um carinho tão especial, e, ainda que não sejam as estrelas das reportagens, são eles que carregam a nossa identidade.

Levo fé neste ano que se inicia. Depois do intensivão que fizemos, alguns sustos e pegadinhas, certamente nossos cantinhos terão nos mostrado que estamos sempre aprendendo a recomeçar.

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Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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