Cancelamento em série, por Shirlei Zonis

novembro 2021 | Design, Arquitetura

A cada dia mais digital, ao alcance do aperto de um botão, nosso mundo automatizado tem confundido muitos.
Qual de nós não se sentiu em algum momento personagem de um enredo, observado, como uma história contada, um livro aberto e acessível ao público?

A vida muito devassada, que tentamos proteger e preservar na intimidade, mais e mais ameaçada de uma invasão bárbara.

E os padrões? Ah, sempre eles, apesar da proclamada diversidade, seguem dando as coordenadas para nosso trajeto diário.

Quando Vitória me disse que queria controlar toda a casa pelo dispositivo (na época um Ipad), não me pareceu um pedido diferente das outras automações introduzidas em projetos, uma febre entre os clientes nos últimos anos, com um mercado animado com as últimas inovações. O mundo ao alcance de um botão, e a casa também.

Aos poucos fomos discriminando todas as tarefas e cenários a serem automatizados e detalhando os procedimentos e as fases. Os cenários de iluminação, que contemplam muitas possibilidades e atividades – jantar romântico, filme com amigos, momento de leitura, bate-papo informal, jogo de futebol. Enfim, uma programação extensa que requeria um painel grande e sofisticado.

A mesma coisa com as funções da cozinha, do micro-ondas à geladeira, preparo de pratos à distância, o manejo das cortinas, das Tvs, refrigeração e som ambiente.

A procura da configuração ideal me pareceu uma aventura em busca do mundo perfeito.

De repente me senti compartilhando com ela um jogo de vídeo game. Enfim parecíamos uma dupla construindo uma realidade que, por mais que estivesse sendo aplicada no projeto de uma casa, era totalmente virtual.

Por quê? me perguntei… será que ali estávamos reforçando algum sintoma?

Até que percebi o que estava me chamando a atenção –  diria mesmo que um desconforto naquela posição de player.

Notei que a cada cenário havia um cancelamento de algum objeto, função e até presenças que haviam sido julgados fora do contexto supostamente ideal para Vitória. Como se ela estivesse numa nave, comigo de co-pilota, resguardando seu mundo protegido de sustos, imprevistos ou contraditórios. Não havia mais nenhum ator com alguma importância naqueles cenários, a não ser Vitória.

Isso me fez cair numa zona de tristeza, porque não senti pulsão de vida naquele movimento. E não era por causa da automação – já havia feito tantas que não tinham essa característica de proteção, isolamento, fuga.

Senti que aquela casa seria uma nave fechada, quase um bunker em que os tiros e cancelamentos davam a sensação de mudança de nível à proprietária, como num jogo de videogame em que você “ganha vidas”.

Senti que eu estava promovendo e ajudando aquela pulsão de morte a se aperfeiçoar, numa excelência que a Vitória exigia.

O que fazer nessa hora em que falta a empatia?

Na época busquei terminar o projeto com o prazer que tenho de entregar um produto bonito e funcional para deixar o cliente feliz.

Anos mais tarde, Vitória me chamou a sua casa e, para minha surpresa, ao abrir a porta, fui derrubada por um lindo labrador chocolate, que me lambeu os pés do início ao final da visita.

A sala estava repleta de objetos jogados pelo chão, brinquedos, um jogo de tabuleiro, bolas. Mal conseguimos chegar ao sofá para conversar.

Confesso que vibrei com essa inesperada anarquia, que nos cercava de ruídos e vibrações.

Vitória então chegou ao motivo da reunião – ela gostaria de fazer uma nova reforma e limpeza no espaço. Estava confusa com aquela multidão que, com o novo casamento e filhos, passava a habitar a casa.

Depois do susto,  me perguntei como seria iniciar esse projeto sem colocar mais do mesmo.

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Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

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