Em primeira mão, leia trechos de livro sobre Attilio Baschera e Gregório Kramer

junho 2020 | Design, Décor

Cinquenta anos atrás, o Brasil era fechado para o exterior. São Paulo acabava de se tornar a maior cidade do País, mas tinha ainda um jeito provinciano. Foi quando uma turma de vanguarda juntou trabalho e conhecimento para fundar o movimentado mercado de design e interiores como o conhecemos hoje. Essa história passa pela atuação central de Attilio Baschera e Gregório Kramer.

Se tem algo que nos anima nesse ano estranho é a preparação do livro escrito por Rica Oliveira Lima sobre essa dupla para lá de dinâmica, com participações muito especiais. O lançamento está previsto para novembro mas, até lá, antecipamos por aqui alguns trechos saborosíssimos dessa saga, na certeza de que quem passar os olhos será enfeitiçado para sempre.

Depois de alguns anos de Ship Shop [loja de roupas de A&G na época], conseguimos pagar as mil prestações das passagens aéreas e fomos para a Europa, primeiro para Roma, onde Attilio fez a cobertura dos desfiles de moda para Claudia, depois para Paris. Ficamos em um hotelzinho barato na Rive Gauche, que já era uma região com lojas bacanas, mais alternativas e voltadas ao público jovem que as antigas lojas da Rive Droite. A gente saía caminhando pelo bairro com o olhar voltado para as lojas de roupas, Yves Saint Laurent e Pierre Cardin eram os grandes nomes da época.

Nesses passeios, começamos a perceber muitas lojas de decoração, pequeninas e engraçadas, muito diferentes do que víamos no Brasil, onde essa área era tratada como uma coisa menor, de segundo escalão. Coisa importante era apenas a arquitetura. Number one. Tenho muito respeito pela arquitetura: tanto que, pense um pouquinho, é difícil desenhar interiores para a obra de um grande arquiteto, Oscar Niemeyer ou Paulo Mendes da Rocha. Diria que é quase impossível, porque a arquitetura é muito forte. Aurélio Martinez Flores era muito amigo nosso e sempre dizia que tinha horror a fazer interiores. (G.K.)

A decoração europeia estava muito à frente, via-se tecidos estampados e coloridos por toda parte. Foi quando pensamos, “para que fazer moda? Vamos fazer decoração!” (A.B.)

São Paulo já estava cheia de lojas esplêndidas vendendo moda jovem, como a Parafernália. Não tinha muito mais o que fazer e explorar nessa área — e não gosto de fazer as coisas só porque outras pessoas já estão tendo sucesso assim. O único designer que também fazia estampas no Brasil era o Paulo Becker e era um negócio que exigia pouco investimento. Foi esse o nosso estalo! Quando voltamos da Europa, nós liquidamos o estoque do Ship Shop e bolamos a Larmod. Isso foi em agosto de 1971. (G.K)