Inspirada no livro Do outro lado, publicado pela Olhares, a série Sankofa – A África Que Te Habita estreou semana passada na Netflix. Ela tem como base depoimentos dos autores do livro, o fotógrafo Cesar Fraga e o historiador Maurício Barros de Castro, que rodaram nove países de onde vieram africanos escravizados para o Brasil em busca de lugares de memória do período.

O roteiro da viagem incluiu as cidades, vilas, fortificações, refúgios e paisagens que contam a trajetória das quatro rotas utilizadas pelo tráfico de escravos para o Brasil, bem como o retorno de africanos libertos para o continente, registrando os resquícios dessa história sob o prisma local e a relação da África contemporânea com o tema. Editamos para você alguns registros arquitetônicos dessa viagem e seus vínculos com a história.

CABO VERDE

“A Cidade Velha fica no sul da Ilha de Santiago, uma das dez que formam o Arquipélago de Cabo Verde, onde os portugueses desembarcaram em 1460. Neste período, teve início a chamada “era dos descobrimentos”, quando portugueses e espanhóis se tornaram os pioneiros, a partir do século XV, na busca por novas rotas marítimas e entrepostos comerciais que ainda não haviam sido percorridos, sobretudo para as sonhadas Índias. […] Em 2009, a Cidade Velha da Ribeira Grande entrou para lista de patrimônios mundiais reconhecidos pela Unesco. Seu conjunto histórico engloba, além do pelourinho, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, as ruínas da Catedral da Sé e a Fortaleza de São Felipe (fotos).”

BENIM

“O mais imponente monumento contemporâneo de todo o Benim – talvez de toda África – a marcar a diáspora africana é a Porta do Não Retorno, uma referência às já citadas portas de saída dos fortes que foram entrepostos do tráfico atlântico. O grandioso portal foi construído próximo à costa, de modo a emoldurar o Oceano Atlântico para quem se aproxima. É uma homenagem aos africanos escravizados que foram embarcados nos navios negreiros com destino ao Novo Mundo.”

“As tradições religiosas são muito importantes no Benim, o que inclui diversos tipos de devoção. Em Uidá, visitamos a Floresta Sagrada, um espaço que reúne diversas estátuas de voduns, e o Templo das Pítons, cobras adoradas na região. […] Ao lado do templo há uma espécie de barracão, erguido muitos séculos atrás, feito de argila e com o teto de palha, onde são realizados os trabalhos religiosos. Durante nossa visita, estava prestes a ocorrer um ritual de iniciação. Sentada sobre uma esteira, uma jovem buscava encontrar seus ancestrais e a si mesma.”

“Conhecida como a “Veneza africana”, Ganvié ganhou uma belíssima descrição do africanista e embaixador Alberto da Costa e Silva. Em seu livro clássico, Um rio chamado Atlântico, publicado em
2003, ele escreveu: Ganvié fica a vários quilômetros da terra firme, e sua população, que vive da pesca, criou uma cultura aquática. As ruas são de água. Os adultos as percorrem em canoas. As crianças passam a nado de casa em casa. De súbito, um anúncio de cerveja, de cigarro francês ou de refrigerante. À porta de uma cabana, a máquina de costura. Ou um homem de pé, a ouvir um transistor.”

“A herança do Brasil em Porto Novo, capital do Benim, pode ser percebida na Grande Mesquita, concluída em 1930, erguida por libertos islamizados retornados do Brasil. A arquitetura do temple não nega suas origens e mais parece com as igrejas católicas coloniais da Bahia, apesar de ele estar situado em um bairro predominantemente muçulmano.”

NIGÉRIA

“Encontramos a casa de Xangô no vilarejo de Koso, próximo da cidade de Nova Oyó, atual capital do reino, localizada no sudeste do país. O guardião do lugar, Oloye Baali Oyedemi Mogba, nos disse que o orixá veio parar na aldeia muito tempo atrás, porque estava zangado com as disputas de poder pelo trono de Oyó. O ancestral de Mogba era amigo de Xangô e conseguiu acalmá-lo. O orixá resolveu permanecer em Koso, até desaparecer na casa que Mogba guarda até hoje e onde só ele pode entrar.”

ANGOLA

“A imponente Fortaleza de São Miguel, incrustada no alto do Morro de São Paulo, de frente para a Baía de Luanda […],reúne a memória militar do país desde o período escravocrata.”

MOÇAMBIQUE

“O JARDIM da Memória, localizado no cais da Ilha de Moçambique, homenageia os milhares de africanos que deixaram a região à força, para serem vendidos nos mercados dos oceanos Índico e Atlântico. Erguido pela Unesco em 2007, o espaço remete ao período entre os séculos XVII e meados do XIX, quando a ilha se tornou o principal centro da administração portuguesa no Índico e maior porto de embarque de escravos de Moçambique.”

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