habitar a casa
preenchê-la de defeitos:
almofadas pelo chão,
móveis novos e velhos,
uma descombinação,
alguém passou por aqui
e deixou alguma coisa.

Noemi Jaffe

“MORAR, SEGUNDO O DICIONÁRIO, é o mesmo que demorar-se, deter-se, retardar. Pois morar é isso: ficar demoradamente. Se tudo é rápido, na morada pode-se prolongar o tempo: ficar à mesa, jogar-se no sofá, dormir, repousar, sentar-se para ler, conversar, cozinhar sem pressa, enfeitar-se, trocar de roupa muitas vezes, olhar-se no espelho, lavar-se, esconder-se, ficar sozinho, praticar o insólito e o transgressivo, gritar, brincar, comer embaixo da mesa com as crianças (ou sem), divertir-se, carregar latas de óleo para exercitar-se, plantar, cuidar de flores, manter uma coleção, uma biblioteca ou discoteca, postar-se à janela, arrumar e, principalmente, a ocupação mais nobre de todas: não fazer nada.”

Quando Marina Linhares decidiu fazer seu segundo livro, sentiu que mostrar belos projetos, como no anterior, poderia já não ser suficiente. Queria refletir sobre a própria atividade de projetar interiores e buscava um formato que permitisse isso de um jeito que fizesse sentido para ela. Lembrou então de uma casa da família semiabandonada na Serra da Bocaina, uma pequena construção cercada de natureza exuberante para onde ia com seus primos muitos anos atrás e dormiam todos no sleeping bag. A reforma desse lugar repleto de memórias afetivas foi o ponto de partida de Alguém passa por aqui e deixa alguma coisa.

Com a parceria de Baba Vacaro em sua concepção, o projeto começou a ganhar corpo. A pesquisa de referências e inspirações, fundamental no processo de trabalho de Marina em cada projeto, ocorreria de forma ampliada, para ganhar mais representatividade. Entre viagens para Portugal, Marrocos, França, Rio Grande do Sul e pela própria região da Bocaina, foram definidos os elementos daquele projeto improvável: uma casa-livro, cujo processo de transformação conduziria (e seria conduzido por) um exercício coletivo de olhar.

O viés autoral e a cumplicidade são latentes no ensaio de Ruy Teixeira, fotógrafo que acompanhou Marina desde o começo do projeto e por todo o percurso de viagens. São suas imagens que desvelam as descobertas do roteiro de produção do livro, ao registar os vestígios do abandono no primeiro momento, a imersão na busca por uma atmosfera para a casa em cada viagem e a força da relação com a paisagem, que influenciou definitivamente a forma como Marina pensou o projeto.

Transitando entre a poesia e a filosofia, o texto da escritora Noemi Jaffe enriquece de sentidos o livro. Convidada para o livro sem nunca ter abordado o tema, ela reflete junto com Marina –no texto introdutório e em uma extensa entrevista – sobre o universo da casa “em permanente construção”, como se vê no trecho inicial desse texto. Além disso, explora a essência da identidade criativa da decoradora, suas concepções profissionais e o desenvolvimento do projeto da Bocaina. O livro ainda é pontuado com poesias de Noemi sobre a casa, o morar e o decorar, que surgem vez ou outra entre as imagens.

Textos, fotos e o processo de decoração têm vitalidade própria no livro, mas sua potência se eleva ao serem delicadamente embaralhados, sugerindo uma fruição livre e contemplativa de memórias, experiências, referências, inspirações, relatos, poesias, imagens, perguntas, respostas e decorações.

Toda essa riqueza editorial ganha mais sentido com o projeto gráfico assinado por Elisa von Randow, com apoio do produtor Jairo da Rocha. Com uma identidade inusual, a começar pela capa azul metálica, e sem se sobrepor aos conteúdos, o design estabelece com conexões, pausas e variações um ritmo envolvente para a leitura. O livro conta ainda com postais encartados e QR-Codes que conduzem a vídeos produzidos em alguns dos locais da pesquisa. E detalhes gráficos como poesias carimbadas em letterpress dão o toque final de sutil encantamento.

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