A segunda pele, por Shirlei Zonis

agosto 2021 | Design, Arquitetura

Quando acabei de fazer a primeira entrevista com aquele cliente, olhei para as anotações, olhei para ele, e para as anotações novamente. Não consegui entender as demandas que ele me trazia, porque todas levavam a não mexer em nada, não modificar uma vírgula do que já estava impresso naquele espaço. Como costuma ser sempre disruptiva a primeira tentativa de se expressar, e só depois as considerações vão se aproximando do que de fato se busca, aquele já prometia ser um trabalho diferente. Era o oposto de uma ruptura.

Tampouco soava como uma restauração. Mais parecia uma garantia de manutenção, algo como quando queremos congelar um momento, para que ele permaneça para sempre do jeitinho que está, por mais impossível que isso seja – a própria imagem do gelo já nos diz bastante dessa transitoriedade.

Meu pensamento voou para viagens em lugares de climas frios, onde lançamos mão do que aqui chamamos de segunda pele, que é de material maleável e se adapta perfeitamente ao nosso corpo, exercendo sua função apenas se estiver bem colada à pele – para assim fazer um isolamento eficaz da temperatura que as próximas camadas de roupa vão trazer. É um coringa, uma roupa de baixo, como dizia minha avó.

Como a nossa pele, a casa também exerce esse papel de envelope, é mediadora das interfaces entre mundo interno e externo. Pode nos proteger, como de fato o faz diariamente em termos físicos e emocionais, e é através dela que trocamos de atmosfera numa respiração compassada. Dentro, fora, dentro, fora, dentro…

Como uma segunda pele, amortece e suaviza essa troca. Mas, por mais que nos apeguemos a ela, ainda assim não deixa de ser uma “roupa de baixo”. Deve ser lavada, costurada, tratada e, por vezes, trocada. Imexível, ficaria colada demais ao corpo e poderia causar essa sensação de que, ao ser retirada, desvestida, poderia levar junto a nossa primeira pele, nos deixando em carne viva.

Mas, voltando ao cliente, esses devaneios me ajudaram a entender o seu momento. Com respeito e cuidado, pudemos juntos arejar o tanto que seu envelope precisava, deixar vir uma camada mais profunda do tecido. Afinal, era uma segunda pele com muita história, mas havia uma renovação que batia na porta querendo entrar. Como bodas em que o casal renova os votos depois de anos de casados.

Se não fosse assim, ele não teria buscado uma arquiteta como mestre de cerimônias.

olhshirlei

Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

Negação, por Shirlei Zonis

Quando aquela cliente chegou cheia de certezas e uma vontade faraônica de modificar tudo, demoramos a perceber que as modificações e obras projetadas estavam encobrindo a realidade insuportável de que aquele espaço já não tinha mais sentido.

Do limão, a limonada, por Shirlei Zonis

Às vezes os apegos aos espaços e memórias podem representar uma dificuldade melancólica na vivência do luto, uma paralisação em algum ponto cego, que não permite nenhuma passagem ou nova vivência

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Lar, por Shirlei Zonis

Podemos nos sentir em casa facilmente, a depender de memórias…