A interpretação dos nossos sonhos, por Shirlei Zonis

outubro 2021 | Design, Arquitetura

Apesar de até hoje sofrer muitas críticas, mesmo passado tanto tempo desde que suas ideias revolucionaram a terapêutica e o pensamento ocidental, é consenso que Freud foi um grande escritor. Em 1930, ganhou o prêmio Goethe, que muitos pensam ser apenas literário, mas que é dado pelo conjunto da obra a notáveis, como foi para Ingmar Bergman, Pina Bausch, Albert Schweitzer, Walter Gropius, por exemplo.

Apesar de ter tido seus livros queimados em praça pública na Alemanha nazista, seus relatos sobrevivem e têm se mostrado a cada dia mais atuais, orientando desde pensadores e filósofos, até médicos, artistas, e, por que não, arquitetos.

Em 1899, publicado com a data de 1900,  – A Interpretação dos Sonhos foi um paradigma em sua obra. E como….

Como propõe de forma inovadora, todo sonho é a realização de um desejo, ainda que apavorante, ainda que amedrontador, aterrorizante, ali se encontra um desejo ainda não manifesto, que na sua realização vem nos contar muito de nós mesmos.

Na prática da interpretação, encontra-se o percurso de sonhar, recordar e relatar o sonho. Por vezes doloroso e interrompido, esse processo nos permite o acesso a áreas de nosso inconsciente, ou pré-consciente que estão submersas como na metáfora do iceberg. Esses relevos compõem a nossa topografia emocional e, se desconsiderados, são os causadores de surpresas desagradáveis e às vezes acidentes irreversíveis.

Como não considerá-los?

Além do que, cada personagem ou ator de nossos sonhos, em tese, somos nós mesmos, ou as várias partes de nosso eu que, dentro dessa dramaturgia onírica, recebem salvo conduto para se manifestarem.

Se transpusermos esse palco onírico para a velha prancheta – aonde jaz aquele papel branco de um tempo atrás (hoje tela), poderemos entender a responsabilidade e expectativa que se instala quando vamos entrar como guias e criadores de um projeto. Aonde se apresentarão todos os personagens e desejos, numa permissiva dança entre realidade e sonho.

E o mais delicado, esse sonho tem a qualidade de ser guiado, fabricado, planejado. Mas não deixa de conter expectativas e desejos ocultos, ainda que inconscientes.

Não é à toa que tentamos apresentar ao cliente uma representação a cada dia com técnicas mais aproximadas da realidade, para que as expectativas não sejam quebradas num despertar interrompido e surpreso, muito mais à frente.

Quando estávamos com Alceu, um cliente sexagenário no seu terceiro projeto de casa no campo, viajando com ele pelos caminhos das sutilezas, vibrando juntos tamanha era a animação a cada encontro e compartilhamento de imagens, fomos surpreendidos por uma avalanche de desmentidos. Toda a anamnese das entrevistas iniciais teve que ser desconsiderada e o processo reiniciado após uma descoberta que mudou o rumo das coisas.

Alceu descobriu que navegar sozinho pelos mares da vida o deixava tão mais satisfeito do que a enorme casa com vista para a montanha, filhos, netos, horizonte de relevo mineiro, piscina, cavalos e outras mordomias.

Comprou um barco do tamanho do seu sonho, vestiu um short, camisa florida, e foi desbravar outros mares.

Nós, é claro, fomos correr atrás de nos inteirar com arquitetura de barcos, bem diferente da de ângulos retos e vidraças.

Não o deixamos só nessa empreitada, viagem a caminho de si, em que cada interpretação é mais uma descoberta dessa alma submersa que, por algum motivo, se fez presente outra vez.

De vez em quando recebemos uma mensagem de algum lugar exótico do planeta aonde Alceu busca se encontrar.

olhshirlei

Shirlei Zonis

Arquiteta e autora do livro Arquitetura no Divã – a Quarta Dimensão do Espaço da Editora Olhares.

Se essa casa fosse minha…, por Shirlei Zonis

Se tem alguma coisa que os meses pandêmicos vieram ensinar – a duras penas, às vezes – foi ter que lidar com vários estágios do funcionamento doméstico, até então quase desconhecidos

shirleiii_home

A segunda pele, por Shirlei Zonis

Como a nossa pele, a casa também exerce esse papel de envelope, é mediadora das interfaces entre mundo interno e externo

Negação, por Shirlei Zonis

Quando aquela cliente chegou cheia de certezas e uma vontade faraônica de modificar tudo, demoramos a perceber que as modificações e obras projetadas estavam encobrindo a realidade insuportável de que aquele espaço já não tinha mais sentido.