No livro publicado pela Olhares em 2015 sobre o mestre do design moderno no Brasil, falecido semana passada aos 98, um ensaio de Ruy Teixeira sobre sua casa foi, além de uma homenagem afetiva, um contraponto “barroco” às linhas limpas de seus móveis.
Organizado por Lissa Carmona, com autoria da professora Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, o livro está esgotado, com reimpressão prevista para o primeiro semestre de 2021. Veja abaixo trechos do livro e as fotos da casa do designer.

Foto: Gui Gaia.

De Varsóvia a São Paulo: longa trajetória

“Sonhar e fantasiar sobre esses novos mundos” foi o que moveu Jorge Zalszupin a emigrar para o Brasil. Antes, porém, teve uma passagem pela França, onde exerceu a arquitetura na cidade de Dunquerque, trabalhando, basicamente, na reconstrução das residências destruídas pela guerra. Ele mesmo conta:

“A luz se fez na minha cabeça e decidi rapidamente que ia emigrar, e emigrar para longe da Europa, empobrecida pelas constantes guerras, contente com seu passado, contrária a qualquer progresso, já que as glórias todas pertenciam ao passado.”

Deixou para trás as vicissitudes dos tempos da guerra, as ruínas das casas destruídas, a crise, as tragédias do Holocausto e optou pelo Brasil. Aqui  chegou no ano de 1950, tempo de Copa do Mundo. No carnaval, a marchinha cantava a história de Chiquita Bacana.

Ruy Teixeira.

Jorge Zalszupin assim contou sobre a sua chegada ao país: “(…) num dia quente e ensolarado, vimos, de repente, diante de nós, a Baía de Guanabara, com o Corcovado, o Pão de Açúcar e tudo o que se tem direito. Fiquei como hipnotizado! Nunca tinha visto um panorama mais espetacular!”

Trazia com ele a rápida experiência francesa frente ao escritório de arquitetura, as habilidades do desenho, que desenvolveu na Escola de Belas Artes, os conhecimentos e os conceitos adquiridos na Escola de Arquitetura, ambos na Universidade de Bucareste.

Ruy Teixeira.

O país passava por uma significativa transformação cultural, política e econômica, expressões de um mundo maior. Nesse período o Brasil recebeu diversos imigrantes estrangeiros; muitos artistas, arquitetos que traziam o comprometimento com o moderno e, como Jorge, todos eles identificaram no país a pujança e o potencial para o desenvolvimento de seus projetos. As esperanças do pós-guerra traziam novas perspectivas; eram os tempos da eleição que levou Getúlio Vargas a ocupar a presidência da República, na então capital, Rio de Janeiro.

Ao mesmo tempo, alguns projetos de arquitetura brasileira já se destacavam internacionalmente pelo seu caráter de integração com o ambiente, adequação climática, emprego de elementos locais e de brises soleil, para proteção contra a intensidade dos raios solares.

De antemão, ele declarou: “No Brasil se fazia arquitetura nova. Não tinha aquela ligação doentia com o passado, como na França. A ligação com o passado é muito boa, mas não a ligação doentia de quem tem medo do futuro e do presente. (…) No Brasil tudo era diferente, não havia essa defesa do passado empoeirado.”

Tributo a Jorge Zalszupin: as reedições Etel

Ruy Teixeira.

As particularidades das condições de vida enfrentadas pelo menino Jerzy Zalszupin, em sua trajetória da Polônia ao Brasil, levaram-no a desenvolver postura de adaptação às circunstâncias, uma atitude criativa e muitas vezes lúdica que está presente em sua obra. Seus artefatos receberam o reconhecimento de estudiosos, críticos, historiadores e da mídia, como ilustram publicações de periódicos paulistas O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo ou do The New York Times.

Compreender o valor do trabalho criativo de Jorge Zalszupin implica em reexaminar as técnicas, os princípios, a matéria-prima e as formas de sua produção. Afinal, como diz Gert Selle: “as formas dos produtos refletem as formas da produção e da vida”.

Ruy Teixeira.

A dinâmica de seu percurso no design se iniciou na década de 1950, no âmbito da tradição artesanal da técnica e do trabalho em madeira, nos padrões do gosto e das encomendas de clientes. Nesse período juntou o poder do artesão com o do designer e criou a L’Atelier.

A produção se transformou e a empresa realizou com determinação a experiência de industrialização do móvel no Brasil. Jorge Zalszupin acreditou na possibilidade de produzir em série e criar linhas de produtos. Foi um momento de inflexão, que favoreceu a implantação e a consolidação do design moderno.

Essa visão transformadora implicou na contratação de designers e arquitetos para desenvolver projetos de produto. Jorge Zalszupin criou um mercado de varejo para o design, expandindo gradativamente o alcance do caráter modernista da mobília. Anos depois, dedicou-se ao móvel de escritório, realizou uma breve experiência de produção de mobiliário escolar e também de experimentação com outros materiais. Suas criações vão do jacarandá aos plásticos. O quadro representativo das diversas vertentes de seu trabalho aqui publicado documenta o seu poder criativo e de renovação.

A força do design do móvel brasileiro foi objeto de uma longa conversa que iniciei com Etel Carmona há mais de vinte anos. Entusiasmadas, compartilhamos afinidades de pensamentos sobre o design brasileiro. Sua empresa abriu novas perspectivas e padrões e destaca-se pela reedição dos mais inspiradores designers modernos do país, a quem presta um tributo pela genialidade de suas criações. Essas reedições do móvel valorizam o poder e o trabalho de seus criadores, bem como seu modo de inserção na sociedade e na intimidade da casa brasileira.

Textos de Maria Cecília Loschiavo dos Santos, para o livro Jorge Zalszupin: Design moderno do Brasil, organizado por Lissa Carmona e publicado pela Olhares em 2015.

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Pouco conhecida do grande público, essa produção surpreenderá o leitor do livro, editado pela Olhares, por suas composições improváveis de formas e cores

Jorge Zalszupin completa 98 anos na casa, em São Paulo, onde vive há seis décadas

A obra do mestre do mobiliário moderno é reconhecida mundialmente